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Aleijadinho, o gênio mestiço

Um homem que vivia com o trabalho de suas mãos descobriu um dia que uma doença as estava lentamente deformando.


Aleijadinho. Euclásio Ventura - Original de Janine Moraes/MinC File:Inauguração do Museu de Congonhas (23425316429).jpg


Uma doença terrível, sem possibilidade de cura na época. Junto às obras que havia realizado, o homem contemplava as próprias mãos feridas. De que modo continuaria criando sua arte? Já não lhe bastava ser mestiço, olhado com desprezo por uma sociedade para a qual a cor de pele era um distintivo das pessoas? Teria ainda que renunciar ao seu trabalho, enterrar dento de si a vocação, o talento, o dom?


Absolutamente não. Antônio Francisco Lisboa não abandonou sua arte. A duras penas, continuou legando para o fruturo seus inestimáveis tesouros. Quando as mãos por completo se deformaram, atou-as com correias de couro, para poder segurar o cinzel, o martelo, a régua, instrumentos de seu mister. Então o povo de Vila Rica, de Congonhas do Campo, de Mariana, de São João del-Rei, o povo mineiro seu vizinho, que conhecia e admirava sua arte, apelidou-o de Aleijadinho. Com esse nome passou a figurar na galeria dos grandes artistas brasileiros respeitado e aplaudido por quantos tenham visto seus profetas, seus altares, suas igrejas. Arquiteto e escultor, Antônio Francisco Lisboa, o Alejadinho.


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A busca de um homem


No início do século XX, houve quem começasse a descer da real existência de Antônio Francisco Lisboa. A dúvida predia-se ao fato de ser atribuída ao mestiço de Vila Rica uma quantidade excessiva de obras arquitetônicas e escultóricas. Não era concebível que um único homem pudesse ter realizado tantos trabalhos e com tal mestria. Após muitas discussões e investigações, chegou-se à conclusão que todo o imenso conjunto das obras atribuídas a Antônio Francisco Lisboa devia ser resultante do esforço congregado de uma equipe de artífices.


Mas a conclusão não foi, ao que parece, das mais satisfatórias. Novas e acuradas pesquisas foram feitas, estabelecendo-se que o Aleijadinho não havia criado todas as peças a ele atribuídas, mas pelo menos uma grande parte delas. Descobriu-se isso consultando inclusive livros da época, contas e registros das igrejas para as quais ele trabalhava.


E, na pista da obra de Antônio Francisco Lisboa, levatou-se também sua biografia.


Manuel Francisco, seu pai


A Portugal foram ter notícias de sua colônia na América. Todas descreviam o Brasil como o paraíso sobre a terra. O lugar do ouro, da riqueza fácil, da natureza gentil, do clima sauave. Muitos portugueses largaram tudo, fizeram as mlas e tomaram o rumo a sul. Um deles foi Manuel Francisco Lisboa, mestre de carpintaria. Escolheu para morar a capital de Capitania das Minas Gerais, Vila Rica, bem sobre a zona do ouro. Ali chegou em 1728 e logo encontrou trabalho, não só de carpintaria, mas também e sobretudo de arquiteto e escultor.


Sua primeira obra no Brasil foi a planta da matriz de Antônio Dias, em Vila Rica. Ainda esculpiu em madeira uma grande série de imagens religiosas. Trinta anos da sua vida dedicou a esse tipo de trabalho, jamais abandonando a tônica sacra. Sua última obra foi realizada em 1766: o plano da capela da Ordem Terceira do Carmo, em Vila Rica.


Dois anos após ter-se estabelecido em Vila Rica, Manoel Francisco esposou Antônia de São Pedro, que lhe deu quatro filhos. Um deles, Antônio Félis de Sousa, ordenou-se padre e seguiu, na arte, os passos de seu pai. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Vila Rica, tem mostra de seu trabalho de estuário.


Antes de seu casamento, segundo alguns, ou em 1738, segundo a maioria dos biógrafos, Manuel Franciso teve, de uma negra escrava, um filho natural, Antônio Francisco Lisboa. Ao bastardo transmitiu, além do nome, ma série de conhecimentos profissionais.


Cor e doença, suas mágoas


Não só do pai aprendeu Antônio Francisco os princípios de sua arte, mas também de um artista português que na época trabalhava como gravador de moedas, na Casa de Fundação de Vila Rica: João Gomes Batista. Asssitindo de perto à criação artística, primeiro de seu pai, depois de João Gomes, o menino mestiço foi-se deixando fascinar pela arte de planejar igrejas, esculpir e entalhar.


Foi difícil obter o reconhecimento de seu talento. A gente da época não lhe perdoava a condição de mestiço. Mesmo quando a força de seu gênio acabaou por impô-lo como escultor e projetista admirável, a cor mulata ainda mantinha erguidas as barreiras do preconceito. Em muitos de seus trabalhos, feitos para confrarias e irmandades de brancos, não lhe foi permitido assinar nem sua obra nem os livros de registros de pagamentos.


Quando sua fama, apesar de tudo, chegou, a outras cidades e sua obra se encontrava em pelno esplendor, a doença o atacou. Lepra, sífilis ou reumatismo deformante, não se sabe ao certo, a terrível enfermidade fê-lo perder todos os dedos dos pés e obrigou-o a andar de joelhos. Dos deodos das mãos, restaram-lhe apenas os indicadores e os polegares. Mesmo doente, Antônio Francisco não interrompeu sua atividade artística. Um escravo seu, de nome Maurício, levava-o a toda parte e atava-lhe às mãos o cinzel e o martelo.


Em 1814 sua vida de sofrimento e mágoas chegou ao fim. O laborioso artista foi enterrado numa vala comum da Confraria da Boa Morte, em Vila Rica. No atestado de óbito, figuram, ao lado de seu nome, apenas duas palavras: pardo, solteiro.


O século XVIII, sua época


Na primeira metade do século XVIII, as construções religiosas em Minas eram sobretudo de igrejas paroquiais. Na seunda metade, passaram a predominar as confrarias e irmandades.


Quando o Governo tomou severas medidas para evitar o contrabando do ouro, impôs à Igreja que só permanecessem na Capitania das Minas Gerais os padres que realmente estivessem na assistência religiosa de seu paroquianos. Muitos padres que não conseguiram justificar sua permanência na zona de mineração se juntaram então, em confrarias e irmandades religiosas. Estas, em número cada vez maior, contribuíram para que as construções religiosas, me Minas, fugissem ao esquema tradicional, em que cada ordem edificava sua igreja segundo um tipo estabelecido. A criação artística, desse modo libertou-se das imposições que regulavam a construção religiosa no século XVIII.


À medida que a situação econômica da Capitania melhorava, graças ao ouro, igrejas e conventos deixavam de ser construídos em madeira ou taipa, para serem edificados em pedra, cal e alvenaria. Por volta de 1740, madeira e taipa já estavam ultrapassadas.


Foi a partir dessa época, quando predominavam as construções em alvenaria, e quando Minas liderava o movimento artístico da colônia, que o Aleijadinho desenvolveu sua atividade de arquiteto e escultor.


Em Vila Rica, sua arte


Em Vila Rica situam-se várias capelas projetadas e decoradas por Antônio Francisco. Uma delas, a da Confraria dos Negros de São José, da qual era membro , teve as obras iniciadas por volta de 1773. No ano anterior, o Aleijadinho havia feito a planta da capela-mor.


A capela da Confraria de Nossa Senhora das Mercês e dos Perdões, mais conhecida como Mercês de baixo, tem proporções de igreja. O Padre João Fernandes, sob cujo patrocínio foi construída, doou-se à Ordem Terceira de Nossa Senhora das Mercês e Redenção dos Cativos.


Nas Minas, suas Igrejas


Não só por Vila Rica estão espalhados os testemunhos da arte arquitetônica de Antônio Francisco Lisboa, mas também pelas cidades vizinhas: Tiradentes, São João del-Rei, Sabará, Morro Grande, Congohas do Campo.


Em São João del-Rei, o Aleijadinho projetou a capela da Confraria dos Terceiros de São Francisco, iniciada em 1773 e inaugurada, em parte, no ano seguinte. Incumbiu-se também da decoração externa e interna do templo.


Na cidade de Tiradentes, antiga Vila de São José do Rio das Mortes, o Aleijadinho elaborou o projeto da fachada para a matriz de Santo Antônio. O trabalho, que incluía o plano da porta e das torres data de 1810. O restante da matriz não é obra sua.


Em Sabará, a Ordem Terceira do Carmo, em 1762, decidiu construir sua capela. As obras foram iniciadas no ano seguinte. De 1770 a 1771, Antônio Francisco supervisionou as modificações nos planos do frontispício da igreja, execultado por outro mestre de obras. Em 1779, entregou esculturas de São Simão Stock. Dois anos depois, execultou a balustrada, o coro e os púlputos.


A matriz de Morro Grande é uma reedifiação antiga igreja de taipa, que datava de 1713. O Aleijadinho participou da decoração, esculpindo uma imagem de São João Batista para o frontispício. Não se sabe ao certo se é dele também a nova planta. Parece que não é obra sua.


Estátuas dos profetas feitas por Aleijadinho. Fotos: Natália Martins - 2010.


Em Congonhas do Campo, planejou o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, cujas obras foram iniciadas em 1758. Vários artífices participaram, e sua contribuição está anotada o Livro de Receita e Despesa do Santuário. A planta imita o Bom Jesus de Braga, de Portugal. À frente existe um adro, em forma de terraço, ornado por doze estátuas de profetas. Ao adro conduz uma rampa, ladeada de sete capelas, que contêm cenas da Paixão de Cristo, os chamdos passos sacros ou Via Crucis.


São Francisco, sua obra-prima


Em 1756, a Ordem Teceira de São Francisco de Assis da Penitência, estabelecida em Vila Rica, decidiu construir uma capela. Cinco anos depois obeteve licença do rei para realizar seu projeto. E encarregou o Aleijadinho de fazê-lo. A construção foi iniciada em 1776 e concluída em 1794.


Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto. Foto: Sarah and Iain - Flickr.


O artista traçou a planta, elaborou a talha e a escultura do frontispício. Fez os dois púlpitos, nos quais esculpiu figuras de santos. Dele são também a pia batismal, as imagens das três pessoas da Santíssima Trindade e dos anjos que adoram o altar principal. Todo o teto da capela-mor é enfeitado de esculturas suas.


Por seu trabalho, o Aleijadinho recebeu a quantia de um conto e setecentos e oitenta e oito mil réis, sendo catorze mil e quatrocentos réis referentes ao projeto da nova portada, e o restante do pagamento pelo plano da tribuna do altar-mor e pela talha. Esses dados estão registrados nos livros de contas da Ordem.


A simlicidade das formas da Igreja de São Francisco lembra ainda, vagamente, as tradições coloniais de construções, no que diz respeito ao aproveitamento das formas. A portada completa-se com um medalhão onde se insere a imagem de São Francisco de Assis. O conjunto da fachada apresenta-se como um delicado bordado sobre pedras.


Congonhas do Campoo, seu museu


A imagens sacras realizadas pelo Aleijadinho se caracterizam pelo colorido invulgar, pela leveza, pela simplicidade e dinamismo. Dois conjuntos de sua obra escultórica atraem mais a atenção e provocam maior admiração. Ambos estão no Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo.


O primeiro é o da Via Crucis, representada nas sete capelas da rampa. São 66 figuras, todas de madeira (cedro), em tamanho natural.


Uma das cenas da Paixão de Cristo feita por Aleijadinho em esculturas de madeira cedro. Foto: Por Mariana Piana

O segundo grupo é o dos profetas do adro de Congonhas do Campo. Emobra danificadas pelo tempo, as estátuas mostram toda a energia e o talento do artista. São doze figuras, pouco maiores que o tamanho natural. As formas imitam os trajes da época dos profetas, segundo as gravuras bíblicas. As estátuas são muito parecidas uma com as outras. Apresentam todas um agudo perfil as mãos em atitudes semelhantes.


O grupo dos profetas foi executado em esteatica ou pedra-sabão, abundante na zona do outro. Esse material foi largamente utilizado pelo Aleijadinho também em umbrais e medalhoões de frontispício. A pedra-sabão presta-se bem à escultura, por ser de consistência macia e fácil talha. Não é, porém muito resistente. Contém veios de ferro, que, quando se oxidam, provocam sua fragmentação.


O Aleijadinho fez ainda algumas estátuas de santos. São Simão Stock, São João da Cruz, São João Batista e São Jorte. Esta última em madeira, foi elaborada para acompalhar a procissão de Corpus Christi. Vinha montada a cavalo, presa ao selim por parafrusos. As pernas flexionavam na altura dos joelhos, por meio de charneiras ou dobradiças.


Sem obra, seu legado


Na arquitetônica, o Aleijadinho demonstra uma leveza muito significativa para a época. A maioria dos grandes de seu tempo eram engenheiros militares. As plantas e fachadas por eles projetadas guardavam ainda muito da tradição colonial de construir edifícios que fossem sobretudo resistentes. Quase não havia cuidados com a parte estética.


O trabalho do Aleijadinho, no setor de arquitetura, consistia em traçar a planta do edifício a ser construído e supervisionar a construção. Realizda a obra, fazia às vezes trabalhos de acabamento. Dava seu toque de mestre aos frontispícios decorados, às portas, que é só seu, embora muitos arquitetos e estuários tentassem imiá-lo.


Sua obra permanesse como testemunho do desenvolvimento artístico de Minas Gerais no século do ouro. A quantidade e a mestria de suas realizações, tanto na arquitetura como na escultura, levaram seu biógrafo francês, Germian Bazin, a chamá-lo de "Michelangelo tropical", paroximando-o, assim, da grande figura do Renascimento italiano.

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