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Alexandre Rodrigues Ferreira: um naturalista brasileiro

Os naturalistas não tinham somente na Europa como Charles Darwin e Wallace, aqui no Brasil também tinha e um deles era Alexandre Rodrigues Ferreira e sua "Viagem Filosófica".


Alexandre Rodrigues Ferreira: um naturalista brasileiro. Fonte da imagem:catadordepapeis.blogspot.com/


Quando Maria I de Portugal, que subira ao trono em 1777, resolveu enviar às colônias portuguesas estudiosos com a missão de recolher dados para resolver o problema dos limites de suas possessões com as da Espanha, foi-lhe recomendado como chegou um brasileiro, que recém-terminara seus estudos na Universidade de Coimbra.


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Quem foi Alexandre Rodrigues Ferreira?


Esse era Alexandre Rodrigues Ferreira, nascido em Salvador, em 1756, filho de família modesta. Desde cedo revelou vida inteligência: aos catorze anos de idade foi enviado a Lisboa e depois a Coimbra, para frequentar os cursos jurídicos e de cânones. Logo depois matriculou-se na Universidade, ainda sob a influência da profunda reforma que lhe imprimira o Marquês de Pombal, alguns anos antes.


A tradicional escola contava então com um seleto grupo de mestres procedentes de Bolonha, Turim, Pádua, Florença, Burges, Salamaca e Paris. Criara intituições complementares, como o Gabinete de História Natural dos Três Reinos, dirigido por Domenico Vandelli, orientador de Rodrigues Ferreira nos estudos, que, mais tarde, lhe proporcionariam a oportunidade de transformar-se num dos primeiros representantes da cultura brasileira.


O jovem naturalista opinava que todo o esforço do pesquisador deveria ser empregado no conhecimento das riquezas do solo, das florestas e dos campos, de modo a permitir um maior aproveitamento dos recursos naturais. "O grau de aplicação que merece uma ciência", dizia, "mede-se pela sua utilidade".


Assim, foi com grande alegria que recebeu a incumbência de transferir-se para o Brasil, sua terra natal, para escudar-lhe as riquezas. Meticulosos ao extremo, organizou a expedição nos mínimos detalhes, prevendo, praticamente, tudo quanto deveria ser feito pelos participantes do grupo que se constituía dele próprio, de dois desenhistas do Real Museu d'Ajuda de Lisboa, Joaquim José Codina e José Joaquim Freire, e um jardineiro-botânico, Antônio Joaquim do Cabo. Como escreveu em suas notas, incluídas na "Viagem Filosófica", que constitui um relatório de incalculável valor no marco da produção científica do Brasil, planejara seu programa de trabalho como se fosse uma expedição militar.


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Os grandes resultados do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira


Tendo partido de Lisboa a 1º e setembro de 1783, Rodrigues Ferreira chegou a Belém do Pará na segunda quinzena de outubro. Seu trabalho de reconhecimento da terra começou imediatamente. No dia seguinte ao da chegada, já percorria os arredores da capital paraense, colhendo, classificando rochas, plantas e animais, observando os colonizadores, os indígenas, seus modos de habitar, comer, vestir, viver. A 7 de novembro, já com os meios disponíveis para a viagem, começa a longa caminhada que se prolongaria pelo rio Amazonas, da ilha de Marajó até o sertão bravio e desconhecido de Mato Grosso, e que duraria dez anos, num percurso total de 39.372 Km.


A rota feita por Alexandre Rodrigues Ferreira. Fonte da imagem: LEITE & LEITE, 2010.

 Durante todo esse lapso de tempo, Alexandre Rodrigues Ferreira palmilhou o sertão do Norte do Brasil. Conheceu primeiro o Tocantins, depois o rio Negro, seguindo para a bacia do rio Branco até chegar ao ponto de maior penetração do domínio português na América do Sul, a fortaleza de São Joaquim. Enquanto viajava e recolhia dados e materiais para estudo, escrevia extensas e minuciosas notícias e relatórios, que enviava à metrópole pelos meios disponíveis. Quando findou a expedição, em Barcelos, Ferreira começou a escrever o Diário de sua viagem. Ainda nessa época enviou dezoito volumes acompanhados de amostras de herbários e coleções de animais e rochas, para o Real Gabinete, e de desenhos de vilas e cachoeiras, animais e indígenas, e um plano geral no rio Negro sobre navegação. Fez acertadas observações sobre as doenças e as condições sanitárias imperantes na região. O total de sua obra, parte da qual foi perdida por descaso dos contemporâneas, supera duzentas memórias escritas de próprio punho, mil desenhos e numerosas aquarelas.


Uma das aquarelas feitas na expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira. Biblioteca Nacional: Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira ; VIAGENS & EXPEDIÇÕES

Uma aquarela de uma planta feita na "Viagem Filosófica" de Alexandre Rodrigues Ferreira. Biblioteca Nacional: Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira ; VIAGENS & EXPEDIÇÕES


A viagem a Mato Grosso e Goiás desenrolou-se através de peripécias e febres palustres, que o acometeram repetidas vezes. A 6 de agosto de 1787 alcançou a foz do rio Madeira, onde se demorou para aumentar as suas coleções. Em seguida subiu o Aripuanã, o Araras, o Matarara, o Agatinhim e por fim o Manicoré. Neste último afluente do Madeira enfrentou a deserção dos índios remadores e ds homens de escolta, amedrontados pelas hostilidades dos índios muras e manducurus, que já haviam posto perigo à sua vida, no Aripuanã. Voltando um pouco sobre seus passos, escolheu uma ilha propícia, onde mandou instalar um campo cercado de paliçadas, com o duplo objetivo de defender-se contra o ataque dos índios e evitar as deserções. Atendendo a seus apelos, o capitão-general J. P. Caldas envia-lhe de Barcelos mais trinta remadores, com os quais prossegue viagem até alcançar a cachoeira de Santo Antônio. Aí ficou de 8 a 30 de janeiro de 1788, realizando trabalhos de coleta que lhe permitiram enviar 52 volumes de amostras para Portugal. Seguiu, depois para Vila Bela, em Mato Grosso, e estudou a formação da serra de São Vicente (serra do Ouro).


Alexandre Rodrigues Ferreira em seu barco na sua "Viagem Filosófica". Fonte da imagem: Este ficheiro foi inicialmente carregado por Jpsousadias em Wikipédia em português.


Foi então para Lavrinhas, visitou e descreveu a gruta da Onça. Novo ataque da doença acomete seu organismo debilitado. Mas continua viagem e chega, em agosto de 1778, a Jauru e a Cuiabá, passando pelo ribeirão das Pitas, Caiçara, ribeirão das Flechas, Arraial dos Cocais e, finalmente, o rio Cuiabá. Pesquisa e gruta do Inferno e entra em contato com os índios guaicurus, em fase de pacificação, servindo como intermediário entre estes e a guarnição de Coimbra para a assinatura de um convênio de paz. Seguindo, logo depois, pelo Guaporé, chega a Belém do Pará a 2 de outubro de 1791, onde dá como encerrada a sua espetacular "Viagem Filosófica."


Em setembro de 1792 casa-se com Germana Pereira de Queirós, filha de um de seu colaborador de Belém. Em outubro embarca para Portugal.


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A desilusão e o malogro


Ao chegar à metrópole, Alexandre Rodrigues Ferreira a encontra em meio a terríveis convulsões políticas e desorganização administrativa, que lhe impossibilitaram ampliar o seu trabalho. Outra decepção o espera: grande parte de suas coleções, reunidas à custa de enormes sacrifícios e esforços, está perdida ou se encontra amontoada em péssimas condições, deteriorada. Inicia, então, para salvar o que resta, a elaboração do Inventário, um minucioso relato de suas viagens e trabalhos, ultimado a 8 de novembro de 1794. Como prêmio pelo desempenho da tarefa que o Reino lhe incumbira, é nomeado, a 11 de setembro de 1795, vice-diretor do Real Gabinete de História Natural, Jardim Botânico e anexos.


Fonte da imagem: LEITE & LEITE, 2010.

Fonte da imagem: LEITE & LEITE, 2010.

Fonte da imagem: LEITE & LEITE, 2010.


Nos últimos anos de sua vida, Alexandre Rodrigues Ferreira sofre as maiores e mais graves decepções.


Junot, oficial de Napoleão, invade Portugal, logo depois da fuga da família imperial para o Brasil. Ele chega acompanhado de um equipe de sábios, dentre os quais o famoso Geoffroy de Saint-Hilaire. Ao tomar conhecimento da obra de Alexandre Rodrigues Ferreira, Saint-Hilaire, que era tão notável no saber quanto na falta de escrúpulos, pilha as coleções reunidas na Torre do Tombo e outras intituições, leva-as a Paris e ali as publica como se fossem suas.


A obra de Alexandre Rodrigues Ferreira. Fonte da imagem: Wikipedia.


Ferreira não resistiu ao choque que lhe causou o fruto de sua obra e o pouco caso que dela fizeram os sábios lisboetas: a 23 de abril de 1815, sem ter alcançado qualquer honraria, faleceu, decepcionado e amargurado, na penúria e no esquecimento.


Referências

LEITE, José Nailton & LEITE, Cecília Sayonara G. Alexandre Rodrigues Ferreira e a formação do pensamento social na Amazônia. Estud. av. vol.24 no.68 São Paulo  2010

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