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Giotto: um artista descobre o homem

Giotto, foi um grande pintor e arquiteto italiano, e é considerado por Giovanni Boccaccio o precursor da pintura renascentista.


Fonte da imagem: Wikipédia/Fonte/Fotógrafo sailko (my camera)


Dizem que nasceu no ano da graça de 1266. Dizem que nasceu 1266 em Vespignano, uma pequena localidade perto de Florença. Dizem que seu pai era dono de uns alqueires de terra estendidos pelas escarpas dos Apeninos e que mais serviam para pasto que para agricultura. Assim, o pequeno Ambrogiotto di Bondone cresceu nos pastos e pastor se fez.


Muitas coisas dizem ainda sobre a vida de Giotto, para preencher o vazio das biografias de um dos mais humanos artistas de sua época. Mas nada foi até agora provado, nem sequer aquela lenda, quase aceita como verdade histórica, do encontro do pastor Ambrogiotto com a fama: estava ele — diz a lenda — com seus rebanhos nas encostas dos vaies que cercavam as terras de Vespignano e, como sempre, muito mais preocupado em desenhar as ovelhas numa pedra lisa, com pedaços de madeira queimada, que em cuidar delas, como bom pastor. Um estranho passeava então pelas montanhas que ligam Toscava e Emilia — duas importantes províncias italianas — e parou ao lado do menino. Talvez parasse apenas para perguntar o caminho; talvez pretendesse descansar por alguns instantes em companhia de alguém. Mas o fato é que, parando, viu os singelos desenhos do garoto e não mais seguiu viagem. Indagou ao rapaz se gostaria de se aperfeiçoar na arte de pintar e, talvez, quem sabe, tornar-se pintor. Da resposta positiva ao pedido da bênção concedida pelo pai — foi apenas o tempo de chegar à casa dos di Bondone. Mas é fato incontestável que por dez anos o jovem Giotto ficou no estúdio florentino do estranho viajante que era Cenni di Pepo em pessoa, mais conhecido na História da Arte por seu apelido, Cimabue.


Dante Alighieri escreveria na sua "Divina Comédia" ("Purgatório", 11, 94-96) que Cimabue era de fato o maior pintor da época, mas só até o momento em que foi ultrapassado pelo seu próprio discípulo.


Depois, só se sabe o que pintou, onde e quando. E que faleceu no dia 8 de janeiro de 1337, pois assim consta das "Crônicas" de Villari, que lá pelo ano de 1373 apareceram em versão rimada. para que todos pudessem decorar, repetir e até cantar a vida dos maiores heróis daqueles tempos: dos pintores, que — sem força física ou militar — conquistariam para a cultura ocidental milhões de adeptos até nos séculos vindouros, e que — sem poder político nem meios de pressão — souberam humanizar o homem dentro dos conceitos do amor e da serenidade.


Por isso, pouco importa ignorarmos os detalhes da vida pessoal de Giotto ou sabermos, por exemplo, que se casou com Ciuta (isto é, Ricevuta di Lapa dei Pera), de quem teve oito filhos. O que importa é sua obra, as ideias que, através dela, transmite para a posteridade. E o homem que descobre.


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De Assis, com amor


Assis é uma pequena cidade em pleno centro da antiga província montanhosa da Itália chamada Cimbria. Ali, em 1181, filho do nobre mercante Pietro di Bernardone, nasceu Francisco — jovem culto, mas tão dado às empresas bélicas que de bom grado participou, em 1202, de uma guerra contra Perugia, uma das muitas que assolavam então a Itália. Travou-se luta feroz e essa ferocidade levou Francisco a trocar a guerra pela paz e pelo amor ao próximo. Em 1209, o ex-guerreiro foi a Roma com um. grupo de seus discípulos para receber do Papa o reconhecimento da ordem que, propondo-se a imitar na terra a vida de Cristo, tentaria implantar o amor não apenas aos homens, mas, também, a todos os seres e coisas. Os pássaros — dizia Francisco — são nossos irmãos; também o são o Sol e a Lua, assim como todos os nossos semelhantes. Esses ensinamentos impressionaram tanto a Giotto que ele passou quatro anos — de 1296 a 1300 aproximadamente — decorando a igreja de São Francisco (então erguida na cidade natal do Santo), com uma série de afrescos dedicados à vida daquele que, corno dizia, o levou a ver e sentir que a Terra era bela e os homens bons. Os 28 afrescos comprovam que é assim mesmo.


De Roma, com fé


Era então papa Bonifácio VIII. Homem culto, formado em direito, entendendo que, em sua época, a supremacia era da religião, dedicou-se a combater as tentativas dos reis que, em várias regiões da Europa, mas principalmente na França, tentavam libertar-se da tutela de Roma. Mas essa: tutela era para o papa a própria lei. Para defendê-la, convocou um concílio; para impô-lo, chegou a excomungar o rei da França. E, empenhado nas lutas temporais, quase chegou a ser preso por seus inimigos.


Mas foi também este papa que trouxe a Roma o já então conhecido pintor dos afrescos de Assis, Giotto. Em Roma, Giotto transformou seu estilo e realizou um grandioso mosaico: "Cristo Passeando sobre as Águas" (que está hoje na Catedral de São Pedro). Pintou também um altar para o Cardeal Stefaneschi (hoje na Galeria do Vaticano) e participou da pintura do mural que perpetuava a proclamação pelo papa do ano — jubileu — 1300 (na Igreja de São João de Latão). Mas não esqueceu o seu São Francisco: o retrato do Santo recebendo as chagas de Cristo está hoje no Museu do Louvre, em Paris. Várias obras menores datam daqueles 4 anos, que jamais seriam esquecidos pela História da Arte.


De Pádua, com severidade


Entre Milão e Veneza, bem no vale do Pó, fica a antiga cidade de Pádua. Vivia naquela cidade um usurário que, de tão conhecido, até foi estigmatizado por Dante na "Divina Comédia" como a personificação do mal. Chamava-se Enrico Scrovegni. E existiam naquela cidade também uns arruinados vestígios de um anfiteatro romano. Terreno e ruínas pertenciam ao usurário que, para expiar os pecados seus e dos pais, como diziam as más línguas, ergueu ali uma capela. Chamou-a Capela dos Scrovegni, mas o povo preferiu chamá-la de Arena, como denominava o anfiteatro. Para decorá-la — ninguém melhor havia naquele período do que Giotto. Era um artista caro: dizem as crônicas que a cidade de Florença lhe outorgou uma pensão vitalícia e que o preço de seus quadros era alto. Mas preço Pouca importava a Scrovegni. Assim, Giotto chegou a Pádua. Talvez com intenção, escolheu como tema de seus afrescos o "Último juízo" e "A Vida e a Paixão do Cristo". Com a mesma intenção, quem sabe, pintou também a severa personificação das Virtudes e dos Vícios, para que a tivesse em mente o rei da usura locai. Fosse como fosse, mais uma obra imorredoura pôde ser criada em Pádua por mestre Giotto.


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De Florença, com alegria


Depois de tantos triunfos, Giotto chega a Florença, cidade quase natal onde se tornou famoso e que o acolheu como filho. Alguns altares, alguns crucifixos para as igrejas florentinas, a decoração com pinturas murais de várias capelas familiares, dos Bardi, Spinelli, Peruzzi na famosa Igreja de Santa Cruz, e eis que o rei de Nápoles lhe outorga o titulo honorifico de membro da casa real e o convida para o Sul da península. Mas por alguma razão até agora desconhecida, nenhuma das suas obras daquele período chegou às nossas mãos foram perdidas ou até destruídas todas elas.


Depois de Nápoles, volta às regiões pátrias. Urna passagem por Bolonha, uma curta estada em Milão, uma visita a Assis, e Giotto, sempre acolhido triunfalmente como um verdadeiro herói, volta a Florença. A cidade toda concentra-se então num esforço supremo: erigir uma catedral digna da riqueza material e espiritual da sua população. E Giotto, embora jamais se ocupasse da arquitetura, é nomeado o capomaestro supervisor da construção. Desenhou então o campanário, mas jamais pôde vê-lo pronto. Faleceu antes do término.


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Por que Giotto pintava?


Como se vê nestas reproduções homens maiores que árvores e quase iguais a montanhas? Ele sabia que essas proporções não correspondem à natureza. Mas com essas proporções Giotto via o mundo: é uma hierarquia das coisas. O homem, na obra de Giotto, ocupa lugar maior. E não as montanhas. E não as árvores. E não os animais. Giotto quis humanizar a realidade que o cercava. Giotto preocupava-se com a realidade, embora modificasse seus aspectos. Ele sabia que o homem vive cercado pelo mundo. Que a seu redor existem exatamente as árvores e as montanhas. Os seus antecessores na Idade Média, no Ocidente (onde imperava o estilo gótico) ou no Oriente (onde surgiu o estilo bizantino), só se interessavam pela hierarquia em forma de grandeza: Deus era pintado mais alto do que Cristo; Este, maior do que os anjos; estes, maiores do que os santos; e assim por diante. E nada existia que os cercasse. O fundo tinha cor de ouro, mas era vazio. Visava apenas a formar efeito decorativo. Giotto transformou este efeito sem sentido numa estrutura da realidade. E soube dar aos personagens estáticos que pintava o dinamismo de sentimentos e de movimentos. Por tudo isso, ele é considerado um precursor da pintura renascentista, embora vivesse no século XIII.

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