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A boa impressão de João Gutenberg

A história de João Gutenberg, o homem a quem se costuma chamar "o pai da imprensa", parece uma reportagem mau feita, em que os dados seguros são poucos, as dúvidas e lacunas, muitas. E tudo entremeado de lendas cuja veracidade é altamente discutível.


Johannes Gutenberg. Fonte da imagem: Wikipedia/http://www.sru.edu/depts/cisba/compsci/dailey/217students/sgm8660/Final/


Em primeiro lugar, o sobrenome de Gutenberg não devia ser Gutenberg, como ode sua mãe, mas Gensfleish ou Glanzfleish, o sobrenome paterno. É possível, porém, que João não gostasse de carne de ganso (que é o que significa Gensfleisch em alemão) e tivesse preferido o outro nome.


E tem mais: Gutenberg não inventou a imprensa. Quando ele nasceu na cidade alemã de Mogúncia, entre 1395 e 1400, o espírito inventivo da Renascença italiana já começava a influenciar a Alemanha. E a imprensa já existia naquele tempo. Ultraprimitiva, toda feia à base de carimbos e blocos de madeira, mal permitia reproduzir textos. Mas quanto a desenhos, dava conta do recado; tanto que foi usada, ao que (mal) se sabe, pelo holandês Laurens Janszoon Closter, ao redor do ano 1420.


Se é assim, então onde está o mérito de Gutenberg? Na prensa de imprimir, rápida e eficiente, que ele foi o primeiro a usar, e nos tipos móveis de metal, que introduziu na Europa. Esses dois aperfeiçoamentos revolucionaram a técnica de impressão e graças a eles, isto é, graças a Gutenberg, é que se tornou possível a transmissão da palavra escrita a crescente número de pessoas.


De qualquer forma, se nos faltam muitas informações sobre a vida e carreira de Gutenberg, a culpa em boa parte é dele próprio: infelizmente, o inventor não tinha o hábito de datar ou assinar seus trabalhos.


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Novas ideias, uma ação


Sabe-se, com certeza, que a família Gutenberg deixou Mogúncia poucos anos depois do nascimento de João e passou a morar em Esttasburgo, ficando nessa cidade mais de vinte anos. O que aconteceu com o futuro inventor durante esse período não é de nosso conhecimento. Gutenberg só entra nessa história a partir de 1439.


Nesse ano, formou uma empresa com três sócios, com o objetivo de "explorar novas ideias". Gutenberg entrava com essas ideias, os outros, com o capital. O empreendimento, porém, logo entrou em maré de azar: pouco depois de formada a empresa, o sócio Andreas Dritzehn faleceu e Gutenberg viu-se a braços com um problema jurídico: os herdeiros do finado moveram-lhe uma ação, tentando forçá-lo a devolver parte do dinheiro investido ou então aceitá-los como sócios em lugar de Dritzehn. A Justiça, entretanto, deu ganho de causa a Gutenberg e este pôde continuar seus trabalhos, sem ter que divulgar quais eram essas ideias.


Mas, como acontece em tais situações, alguma coisa escapa ao segredo: na documentação dos processos da corte judicial consta que uma das testemunhas chamadas falou em drücken, que em alemão significa imprimir. Logo, não é descabido presumir que impressão era realmente a atividade a que se dedicava a empresa desfeita. E há outros indícios nesse sentido: encontraram-se fragmentos de um poema e um calendário astronômico que se acredita tenham sido impressos então. Segundo astrônomos, o calendário refere-se a 1448. Admitindo como certa a conclusão dos astrônomos, deduz-se  logicamente que a tipografia com caracteres ou tipos móveis foi usada pela primeira vez no máximo até 1447, ou mesmo antes, talvez em 1440, como afirmam muitos.


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Outro lugar, nova tarefa


Gutenberg volta a Mogúncia por volta de 1450, disposto a recomeçar sua carreira de impressor. Conhece um rico joalheiro, João Fust, de quem toma um polpudo empréstimo e monta uma nova oficina. Agora, a tarefa que Gutenberg se propõe é bem mais ousada: imprimir uma Bíblia.


Uma das primeiras Bíblias impressas por Gutenberg. Fonte da imagem: Wikipedia/Moses, et al.


Logo, porém, surgem as primeiras dificuldades, e não se trata de dificuldades tipográficas, mas financeiras. Após imprimir as primeiras páginas, Gutenberg percebe que era necessário reduzir os custos de produção. A Bíblia estava saindo cara. Decide economizar papel, e passa então a usar, por página duas colunas de 42 linhas ao invés de 40, como no começo.


Com toda a economia, a Bíblia de Gutenberg, o primeiro livro impresso no Ocidente com tipos móveis, escrita em latim, dá um volume de 1.282 páginas. Por isso, Gutenberg e seu sócio resolveram dividir a Bíblia em dois volumes, o que compensaria mais. E deve ter compensado tanto que nenhum volume ficou encalhado, por isso todos se perderam, menos dois: um que está em Paris, outro em Nova York.


Mas em 1455 Gutenberg viu-se de novo envolvido em questões judiciais: Fust o estava processando para que devolvesse o dinheiro emprestado. O que explica a atitude do joalheiro? Não se sabe ao certo. Ou perdera a confiança no inventor ou era uma manobra desonesta: muitos acreditam que Fust queria apoderar-se da impressora e das Bíblias prontas. Desconfiança ou má-fé, o fato é que Fust se saiu bem: sem dispor de meios para saldar imediatamente sua dívida, Gutenberg foi obrigado a ceder todo seu material de impressão. E Fust, com a ajuda de um ados auxiliares de Gutenberg Pedro Scheffer, montou sua própria impressora, terminou de editar as Bíblias e as vendeu. Com lucro, presumivelmente.


A partir desse episódio, as informações sobre as andanças do inventor se tornaram cada vez mais raras e incertas: parece que ele conseguiu salvar algumas de suas posses e, com elas, pode reiniciar a impressão de uma outra Bíblia, usando agora 36 linhas por página, e de um dicionário.


Depois de 1460, consta que deixou a impressão e, cinco anos mais tarde, recebeu uma pensão para o sustento. A pensão só foi necessária até 1468, quando João Gutenberg morreu. Outros cinco anos, e seu invento começava a triunfar marcha pelo mundo. Em 1544 a palavra impressa chegaria também ás Américas, instalada no México, então Nova Espanha, pelos espanhóis.

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