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Homero: o poeta das epopéias

Os gregos do século V a.C relembravam que, em algum lugar, num passado distante, vivera um homem chamado Homero, que compusera dois grandes poemas épicos: "Ilíada" e "Odisséia".


Fonte da imagem: altoastral.com.br


Mas os próprios gregos da antiguidade sabiam muito pouco a respeito de Homero. São mínimas as provas a respeito de sua existência, nunca se pôde fixar de modo claro a data e o local de seu nascimento. Alguns testemunhos antigos permitem certas deduções. Homero deve ter vivido entre os séculos IX e VIII a.C.; alguns estudiosos atribuíram como época provável até o século XII a.C. Várias cidades disputam hoje a honra de ter sido o lugar de nascimento de Homero: Esmirna, Rodes, Quios, Argos, Ítaca, Pilos e Atenas.


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A história e lendas de Homero


Inúmeras lendas narram a vida de Homero. Segundo uma delas, era filho de Meon, e muito cedo ficou órfão de pai e mãe, vivendo em extrema pobreza. Entre tantas notícias incertas e díspares, a da pobreza de Homero é uma que se repete nas várias biografias. Aprendeu história e música e, a seguir, tornou-se mestre na escola que frequentava. Mas não permaneceu muito tempo em sua terra: um mercador, Mente, levou-o em suas viagens através do Mediterrâneo. Nessa época, teria chegado ao Egito, Líbia, Ibéria e Itália.


Esteve algum tempo na ilha de Ítaca, onde reuniu dados para escrever a vida de Odisseu, conhecido pelos latinos como Ulisses, o aventureiro rei da ilha. Em Ítaca teve os primeiros sintomas de uma grave doença dos olhos, que o cegou para o resto da vida. Continuou porém suas viagens indo para Quinos, onde completou o primeiro grande poema: "Ilíada". Retomando as viagens por mar, foi até a pequena ilha de Io, onde morreu.


Este é o resumo de uma das muitas fantasiosas biografias de Homero que foram escritas. A falta total de dados sobre a vida do legendário poeta levou à crença de que não fosse um personagem real, chegando-se inclusive a negá-lo completamente. Julgou-se que os poemas se originaram de dois breves contos muito antigos e dispersaram-se oralmente durante gerações, passando por constantes modificações e acréscimos.


A partir de meados do século XVIII o interesse pela figura do poeta cresceu de tal maneira que surgiu uma verdadeira "questão homérica". Teses inteiras foram elaboras, afirmando ou negando a sua existência.


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A tradição épica


A "Ilíada" desenvolveu-se em torno do cerco e queda de Ilion, antigo nome de Tróia, que provavelmente se deu no século XIII a.C. O poema descreve com precisão o mundo grego dessa época. No entanto, a maior parte das teorias afirma que os poemas só foram elaborados por volta de 400 anos após a guerra. Isto teria sido possível graças à manutenção oral das tradições e costumes, efetuada pelos rapsodos, trovadores, que viajavam de cidade em cidade, cantando poemas épicos e histórias de aventuras nas cortes dos reis e nos acampamentos guerreiros. Em geral eram homens de imaginação fértil, que construíam os poemas om base nos fatos que lhes eram contados; um amplo manancial de frases e comparações, transmitido de geração a geração, facilitava a criação de poemas sobre qualquer tema que lhes fosse solicitado.


Homero pode ter sido uma espécie de rapsodo, um soberbo contador dos épicos da antiga Grécia. Nunca escreveu os poemas, pois na época de sua provável existência a escrita não chegara à Grécia. Tal como outros poemas históricos, também a "Ilíada" e a "Odisséia" devem ter-se conservado graças à tradição oral. Na obra atribuída a Homero aparecem frases, comparações e técnicas dos antigos rapsodos, embora o resultado geral seja muito superior. Mas, em contraposição à maioria dos poemas épicos daquele tempo, uma característica que distingue esta obra é a sua extensão e a unidade. A "Ilíada", por exemplo, levaria cinco noites para ser contata.


A teoria moderna a respeito da origem das epopéias sustenta que há em sua formação um material épico flutuante e tradicional, mantido e transmitido oralmente e do qual o poeta pôde suprir-se para confeccionar com harmonia o poema, de acordo com seu ideal de composição.


Os dois poemas apresentam certa unidade; a diferença entre eles pode ser atribuída à diversidade das épocas a que se referem. A "Ilíada" caracteriza-se pelas aventuras guerreiras da conquista de Tróia; a "Odisséia", que descreve a viagem de Ulisses em sua volta para Ítaca, após a guerra de Tróia, concentra-se mais na paz, vida doméstica, civilização urbana, viagens de prazer. Mesmo a variação de dialetos que foi observada nos poemas apresenta-se igualmente na "Ilíada" e na "Odisséia": não pode constituir um elemento que caracterize os poemas como de autoria diversa.


Entretanto, tenha Homero existido ou não a "Ilíada" e a "Odisséia", continuam a ser lidas. Mesmo que o autor tenha sido outro, o nome de Homero está profundamente associado a elas e assim será para sempre.


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A difusão dos poemas


Na Grécia antiga as histórias que narravam o cerco e destruição de Tróia estavam entre as preferidas dos ouvintes. Provavelmente a "Ilíada" foi imaginada para uma audiência familiarizada com o panorama histórico, pois Homero menciona livremente acontecimentos do passado, confiante por certo em que os ouvintes entenderiam as casuais referências.


No século VII a.C., rapsodos de toda a Grécia recitavam trechos de "Ilíada" e da "Odisséia". Ficaram conhecidos como "homéridas", pois contavam as histórias criadas por Homero. Segundo a tradição, o estadista ateniense Pisístrato (605-527 a.C.) foi quem pela primeira vez mandou colecionar todos os poemas esparsos, desempenhando assim papel  de primordial importância na educação grega, já que as qualidades dos heróis épicos passaram a servir como padrão de comportamento.


Mais tarde, em Roma, Homero foi o mais bem acolhido dos escritores gregos: lido, admirado, traduzido e imitado. à sua semelhança, Virgílio (70-19 a.C.) escreveu a "Eneida". Muitos séculos depois a influência de Homero levaria o português Luís Vaz de Camões (1524/1525-1580) a escrever "Os Lusíadas" e o inglês John Milton (1608-1674) a criar seu "Paraíso Perdido". E até hoje, quando queremos referir-nos a grande feitos, falamos em façanhas homéricas, e por odisséias entendemos os empreendimentos sobre-humanos, como a viagem de Ulisses e a guerra de Tróia.


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