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Luís Vaz de Camões: soldado e poeta

Uma dúzia de datas certas, muitos fatos duvidosos. A vida de Luís de Camões, o maior poeta da língua portuguesa, chega por vezes a confundir-se com as lendas do próprio país onde nasceu.


Fonte da imagem: brasilescola.uol.com.br


Manuel Correia, contemporânea do "divino poeta", teria declarado no prefácio de uma das edições de Os Lusíadas: "O autor desse livro foi Luís Vaz de Camões, português de nação, nascido e criado em Lisboa..." O local de nascimento é certo, a data é que não: foi por volta de 1524. Segundo seus primeiros biógrafos, ele pertenceu a uma família de nobres estabelecida em Portugal desde a época de Dom Fernando I (segunda metade do século XIV). O próprio Camões atribui-se a condição de nobre em algumas composições poéticas. Seu pai teria sido Simão Vaz de Camões, sua mãe morreu ao dá-lo a luz:


"A mãe ao próprio filho não conheça...

Quando vim da materna sepultura

De novo à vida, logo meu fizeram

Estrelas infelices obrigado."


O fato de ter sido nobre, no entanto, não impediu que ele conhecesse a fome e a miséria, que a acompanharam até a morte.


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Um pobre nobre


Na Europa do século XVI, o poderio das família nobres apoiava-se exclusivamente no relacionamento com a corte, através da qual se obtinham os altos cargos administrativos na metrópole ou nas colônias. Esses postos constituíam as maiores fontes de enriquecimento. Os nobres que não conseguissem tal relacionamento ou que não tivessem um patrimônio hereditário considerável estavam condenados à pobreza.


Nessa época, não eram raros os fidalgos miseráveis. No entanto, o orgulho na nobreza sobrevivia, por mais dramática que fosse a sua situação financeira. Para essa aristocracia de corte, a riqueza não era critério que estabelecesse hierarquia social. Acreditavam pertencer a uma classe superior, pelo nome e posição. Relutavam em ser comerciantes ou em realizar trabalhos "vulgares". Almejavam, quase sempre, a carreira militar.


Esse tipo de mentalidade iria refletir-se profundamente na personalidade de Camões. De berço nobre e pobre, não experimentaria outras atividades senão as de soldado e funcionário administrativo no Oriente, além daquela que deixaria seu nome para a posteridade: a de poeta.


Numa mão a pena, noutra a espada


Aprender ofícios manuais ou dedicar-se ao comércio: essas eram as únicas possibilidades oferecidas a um "vilão" pobre de Lisboa, no século XVI. Já os nobres sem dinheiro podiam seguir, como última saída não humilhante, a carreira eclesiástica; além de oferecer cultura humanística, esse caminho permitia usufruir as regalias de membro da Igreja. A erudição de Camões indica que ele provavelmente estudou Letras e Artes num colégio sacerdotal em Coimbra, onde ficava a única universidade portuguesa. Aí teria estudado os autores gregos, assim como Virgílio, Horácio e Petrarca. Nas horas de folga começou a escrever cantigas e a dedilhar galanteios na viola. Fidalgas, burguesas, "damas de aluger", todas se apaixonavam por ele.


Aos poucos, foi-se aproximando da core, onde conheceu personalidades influentes. Escrevia poemas, sonetos, canções e todos o aplaudiam. Sua preparação literária o habilitaria ao acesso, com o favor dessa gente, a bons cargos no funcionalismo. No entanto, não escolheu esse caminho. Espada em punho, partiu com uma expedição a Cueta, na África, a fim de lutar contra os mouros. Que razão teria levado a tal empreitada? Trocar a oportunidade de enriquecimento junto ao reino por uma vida arriscada, longe de amigos importantes que o admiravam! Aí entra a lenda, começam as suposições. A frente militar, cheia de risos, servia na época como local de desterro.


Alguns biógrafos da época aludem ao desterro de camões como um castigo imposto por um poderoso nobre, que não queria ver sua filha namorando um poeta pobre. Alguns manuscritos falam numa Catarina de Ataíde. Ou seria Violante de Atáide? Vários nomes surgem em sua história muitas Catarinas, é difícil sabre qual o verdadeiro amor do poeta:


"Todas formosas são, mas eu queria

Viola ante que lírio nem que rosa!"


Em 1552 Camões volta a Lisboa. Na luta, perdera o olho direito, mas disso não se lastima:


"E não presuma alguém que algum defeito

Quando na coisa amada se apresenta

Possa diminuir o amor perfeito..."


Sem nenhuma esperança de reconquistar o amor que o levara ao desterro, Camões retoma a antiga vida de jovem despreocupado, compondo poesias, conquistando novos amores e fazendo vários inimigos, até que, durante uma procissão de Corpus Christi, vê-se envolvido numa briga. Tentando defender um amigo, fere um homem. Preso, consegue depois de um ano obter o perdão pela ofensa, mas sobe uma condição: exilar-se nas Índias. Homem de trinta anos, já conhecido como autor de versos e autos, Camões seria talvez o único escritor de formação humanística de seu tempo a atravessar os mares. Aventuras nas Índias só interessavam a fidalgos, que partiam com alguma nomeação importante, ou a pobres-diabos que procuram fugir de estreiteza de vida que lhes era concedida no reino. Mas para Camões não havia escolha; e talvez até a Índia representasse um meio de fugir à pobreza. Às vésperas da partida o poeta é um homem sem ofício certo, que fala o que bem entende, numa linguagem irresrespeitosa; enfim um artista à margem da sociedade.


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Morre a amada mas salva-se a obra


No exílio, Camões divide seu tempo entre as funções de soldado, poeta e amante. Participa de uma expedição em terra e de um cruzeiro pelo mar Vermelho. Depois de lutar em várias batalhas, chega a Macau, colônia portuguesa na China, em 1558. No começo do exílio, iniciara uma epopéia poética. Agora, ela está quase terminada. Episódio de sua própria vida, deuses gregos, assim como feitos heróicos do passado português, inspiraram-no para a compisição em versos da história de seu povo. à epopéia dos lusos deu o nome de Os Lusíadas.


Fonte da imagem: Wikipédia


Uma viagem para o Oriente significava, na época, bom negócio. Um dos primeiros biógrafos de Camões, no entanto, preferiu acreditar que sua viagem a essa região tenha sido castigo. E uma fatalidade aguardava o poeta. Não na ida, mas na viagem de regresso. O barco em que viajava naufragou na foz do rio Mekong. Camões salvou-se e também sua obra. Segundo a lenda, ele teria nadado até a costa sem deixar que o original de Os Lusíadas se perdesse. Num manuscrito do cronista Diogo de Couto, encontra-se a descrição do naufrágio e da salvação: "Lavaram-se todos despidos, e o Camões, por dita, escapou com Os Lusíadas e... ali se afogou uma moça china". Essa moça Dinnamene, teria sido outro amor do poeta, aquela que inspirou em um de seus mais conhecidos sonetos:


"Alma minha gentil que te partiste

tão cedo dessa via descontente..."


Nem um lençol para mortalha


Em 1568, Diogo de Couto desembarcou em Moçambique (África) onde encontrou Camões vivendo de esmola. Sua popéia, Os Lusíadas, já estava terminada. Agora o poeta trabalhava nas Líricas. Depois de um ano, os amigos conseguiram levá-lo de volta a Portugal, onde começaram a tratar de editar os Os Lusíadas. Em 1572 o livro  já estava na rua; num só ano foram feitas várias edições. El-Rei Dom Sebastião concedeu-lhe uma ajuda de 15.000 réis anuais, mas acabou esquecendo de cumprir a promessa.


No final de Os Lusíadas o poeta oferecia-se para narrar em versos os feitos de Dom Sebastião na África. Este,  no entanto, recusou a oferta, entregando a tarefa a outro. Triste e só, Camões caiu de novo na miséria. Relatam seus mais antigos biógrafos que seu escravo, trazido da Índia, pedia esmola à noite para sustentar o patrão. Tamanha era sua pobreza que, ao morrer, em 1580, não tinha sequer um lençol com o qual o amortalhassem, tendo sido enterrado em campa rasa. Mais tarde, em 1594, um amigo, Dom Gonçalo Coutinho, mandou esculpir-lhe uma lápide com os dizeres: "Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos Poetas do seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente e assim morreu".


Pouco depois também a pátria morria: Portugal era incorporado à Espanha. Em 1775 um terremoto destruiria a sepultura, a lápide, os despojos de Camões. Mas, como disse o escritor espanhol Cervantes, autor de Dom Quixote, ficarem Os Lusíadas, "o tesouro de Portugal".


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Síntese do Renascimento português


A vida aventurosa e cheia de dificuldades de Luís Vaz de Camões não impediu que ele assimilasse uma cultura de altíssimo nível. Conheceu a literatura antiga e à moderna da Itália e da Espanha. Familiarizou-se com a cosmografia e a geografia. Nos cronistas da época, estudou profundamente a história de seu país e sua gente. Em matéria de poesia, Camões dominou, como nenhum outro poeta português , todos os gêneros. Fez versos tradicionais, populares, líricos, redondilhas, sonetos, canções, ordes, elegias, comédias, autos. Foi o primeiro português a tentar uma epopéia clássica.


Com sua obra diversificada e complexa, Camões oferece uma síntese do Renascimento literário português. Sob os ecos do humanismo italiano, o Renascimento em Portugal encontrou seu ponto culminante na criação do Colégio das Artes de Coimbra, fundado em 1548. Entre os preceitos da escola, os mais significativos e que melhor definem o vulto de Camões dentro da literatura são os seguintes: o estudo e o trabalho devem ter primazia sobre a inspiração; é necessário conhecer e tentar imitar os clássicos; crítica e autocrítica são indispensáveis, assim como o estímulo a poetas que tentem escrever uma epopéia nacional.


A obra lírica de Camões oscila entre dois pontos: o lirismo confessional, onde ele da vazão à sua experiência íntima, e a poesia puramente artística, onde pretende desligar-se das próprias emoções para atingir o domínio da harmonia poética em si. O amor, para o poeta, é uma aspiração que engrandece e apura o espírito. Não deve concretizar-se, pois corre o risco de extinguir-se: tem que ser sempre sofrimento e desejo insatisfeito. A alegria é o próprio tormento e o amor é um jogo de contrastes.


No entanto, pertence ao gênero épico a obra mais importante de Camões: Os Lusíadas. Maior epopéia portuguesa e uma das grandes boras da literatura universal, esse poema tem como eixo central a expedição de Vasco da gama às Índias, mas reporta-se aos episódios mais importantes do passado de Portugal, resumindo assim sua história. Além disso, os conhecimentos de zoologia, geografia, astronomia e outras ciências, presentes no poema, fazem dele uma espécie de síntese do saber da época.


Constituído por versos decassílabos heroicos (versos de dez sílabas com acento na sexta e na décima) e dividido em dez cantos, Os Lusíadas é ainda hoje apreciado e estudado por seus vários recursos estilísticos e pela maestria de sua linguagem.

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