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Beethoven: o mestre de Bonn

Havia algo de estranho naquele homem atarracado que costumava passear pelas ruas de Viena, por volta de 1820.


Fonte da imagem: Wikipedia/Joseph Karl Stieler


Parecia estar sempre ausente, distante do mundo que o rodeava. Sem rumo certo, ora caminhava mais depressa, ora se detinha por longos momentos, com expressões de perplexidade.


Esses passeios conduzam-no aos verdes arredores da cidade, onde encontrava paz e inspiração. Como todos os solitários, esse homem de cabeleira revolta amava a natureza com toda a alma.


Os curiosos que se voltavam para observá-lo não o perturbavam. Alheio a tudo, seguia seu caminho, murmurando consigo mesmo e, ás vezes, cantando alto com voz grave e rouca, enquanto, com as mãos, regia uma orquestra invisível.


As pessoas julgavam-no louco. Não percebiam que era surdo, e, menos ainda, imaginavam que se tratava de um grande gênio: Ludwing van Beethoven.


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A infância de Beethoven


Nascido a 16 de dezembro de 1770, na cidade de Bonn, Alemanha, Beethoven tinha atrás de si pelo menos duas gerações de musicistas.


Seu avô era mestre de capela, ou seja, regente do coro da igreja da cidade, onde o pai de Ludwing também cantava.


O menino não parecia alemão: era moreno, como seus antepassados flamengos. Desde cedo, revelou acentuada vocação para a música, e seu pai decidiu conquistar, através do filho, o prestígio que fora incapaz de obter.


A figura do pai de Beethoven é bastante controvertida: alguns biógrafos apresentam-no como beberão e grosseiro; outros, como um homem brincalhão, que gostava de fazer música e cantar. De uma forma ou de outra, não foi só na casa paterna que nasceu o drama íntimo de Beethoven. Na verdade, toda a sua época, denominada romântica, vivia um clima de angústia e fantasia, de paixões impossíveis e amores contraídos.


Beethoven tinha apenas 5 anos quando começou a estudar simultaneamente cravo, violino e viola. Os exercícios ocupavam-no, diariamente, horas a fio. E, em 1778, Beethoven já participava de um recital, apresentado por seu pai como um prodígio de 6 anos de idade. A mentira certamente confundiu o menino, que, dali poucos meses, completaria 8 anos.


Juntamente com seus estudos musicais, aprendia a ler e escrever. Contudo, segundo suas próprias palavras, tinha uma letra "pior que a de uma cozinheira". Tirava notas baixas em aritmética e o latim sempre lhe pareceu uma língua inacessível.


Ainda em 1770, Beethoven estudou a obra de outro gênio da música, Johann Sebastian Bach, sob a orientação de Heinrich van der Eeden, que o iniciou em mais um instrumento, o órgão.


Solista da orquestra da corte


No ano seguinte, Beethoven começou a estudar composição. em seguida, Christian Gottlieb Neefe, organista-mor da corte, ensinou-lhe teoria musical, aprimorou seus conhecimentos de órgão e mostrou-lhe as obras dos mais famosos compositores do momento, Haydn e Mozart. Nessa mesma época, o jovem Beethoven iniciava também seu aprendizado de piano.


Quando Beethoven completou 11 anos, Christian Neefe obteve sua nomeação para organista-suplente da corte. Beethoven passava de aluno a colega do mestre. E mais ainda: dois anos depois, era contratado como solista de cravo da orquestra da corte.


Uma vida de paixões


Na primavera de 1787, Beethoven mudou-se para Viena, levando uma carta do príncipe Max Franz, que o apresentava a Mozart. Recebido pelo célebre compositor austríaco, Beethoven executou para ele uma de suas peças, que foi objeto apenas de um breve comentário. Inconformado com a reação de Mozart, Beethoven pediu-lhe um tema sobre o qual improvisou durante quinze minutos. A indiferença transformou-se em franco entusiasmo, e Mozart, dirigindo-se aos demais presentes, afirmou: "É um assombro! Prestem atenção a este rapaz, pois ele ainda fará com que o mundo fale a seu respeito".


Mas o contato entre Mozart e Beethoven foi breve. Poucas semanas depois, ao receber a notícia de que sua mãe estava internada num hospital, com tuberculose, Beethoven regressou a Bonn.


Viena, apesar das transformações sociais que vinham ocorrendo em toda a Europa desde a Revolução Francesa, ainda continuava sendo o principal centro musical do continente, com sua nobreza protegendo os grandes talentos. Ora, no ano de 1792, graças aos esforços do conde Waldstein, Beethoven despede-se de sua cidade natal e volta para a capital austríaca, onde inicia o tipo de vida que levaria daí em diante: voltada para a composição e para as profundas paixões despertadas por alunas e admiradoras.


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O mocidade: estilo galante


O musicólogo russo Wihelm von Lenz formulou a tese das três fases da criação musical de Beethoven: mocidade, maturidade e últimas obras. Embora algumas composições não se enquadrem bem no esquema proposto, a tese é até os dias de hoje geralmente aceita.


O ano de retorno de Beethoven a Viena é o marco inicial da primeira fase, cujas obras se caracterizam pelo frescor juvenil, pelo brilho virtuosístico e pelo estilo galante do século XVIII.


Esse período, contudo, é interrompido, às vezes por tempestades emocionais e crises de melancolia. Acolhido pela aristocracia austríaca, a vida do compositor transcorre mais ou menos despreocupada. Beethoven toma algumas aulas com Haydn e, graças a vários mecenas, pode dedicar-se às composições.


Bem característicos dessa fase inicial são os dois primeiros concertos para piano e orquestra, o septeto opus 20 e a sonata Primavera, para violino e piano, composições ainda bem influenciadas pelo estilo de Mozart.


Contudo, outras obras desse período  já chegam a revelar o verdadeiro temperamento de Beethoven, angustiado e rebelde. É o caso da sonata Patética, dos quartetos opus 18, da sonata Ao Luar e da sonata A Kreutzer.


Um homem atormentado: a maturidade


O chamado período de maturidade, quando o estilo galante se torna trágico, começa pouco depois do início do século XIX, com o aparecimento da misteriosa doença nos ouvidos que quase leva Beethoven ao suicido.


Retirando-se para Heiligenstadt, subúrbio de Viena, o compositor chega mesmo a escrever seu testamento. Mas felizmente supera a crise. Volta então a criar uma obra que lhe garante o sucesso que poucos compositores conheceram em vida. A serenidade, porém, lhe seria sempre passageira, cedendo lugar à constante tensão de sua mente atormentada.


A sinfonia nº3, Eroica, pode ser considerada o marco inicial da maturidade de Beethoven. Consagrada originalmente à glória de Napoleão, o compositor rasga a dedicatória quando este se coroa imperador. A terceira sinfonia pasa então a ter outro título: Sinfonia Eroica composta para celebrar a mémoria de um grande homem.


Do segundo período também fazem parte a sonata Apassionata, a sonata Aurora, dedicada ao conde Waldstein, o lírico concerto nº4 para piano e orquestra, e a 6ª sinfonia, que levava a seguinte indicação: Sinfonia Pastoral em recordação à vida no campo, antes expressão de sensações do que pintura... Vê-se por essa anotação que Beethoven não admitia que a Pastoral fosse considerada como simples descrição sonora de uma paisagem.


Aliás, fazer música como expressão de sentimentos apenas foi a grande contribuição dos compositores românticos. A esse respeito, conta-se que, certa vez, quando Beethoven executava uma de de suas sonatas, uma condessa que o ouvia lhe perguntou: "Muito bem, mas que quer dizer com isso?" Ele tornou a sentar-se ao piano e repetiu a peça. Ao terminar, explicou: "Isto mesmo".


Ainda na fase da maturidade, Beethoven compôs, entre outras obras, a 7ª e 8ª sinfonias e a sonata para violino e piano, opus 96, considerada a despedida poética desse período.


No ano de 1814, o Congresso de Viena reúne políticos aristocratas e intelectuais de odo o continente europeu. Beethoven é aclamado como o maior compositor da época.


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Os últimos anos: prenúncios do fim


Terminados os festejos de 1814, o mestre retira-se para a solidão, completamente surdo. Tem início o terceiro período.


Beethoven torna-se um tipo estranho, mal vestido, ás vezes imundo. Faz longos passeios solitários e absorto em seus pensamentos musicais, compõe obras que, na época, poucos compreendem, embora ouçam com o maior respeito, pois são criações do "Mestre de Bonn". No profundo silêncio em que a doença o encerra, elabora uma música extremamente abstrata e interiorizada.


O pórtico desse período é a sonata para piano opus 106. Igualmente características da terceira fase são as três últimas sonatas para piano e a 9ª sinfonia, turbilhão sonoro que assustou os contemporâneos do compositor. E, finalmente, o ciclo dos últimos quartetos, concluído em 1826.


Nesse ano, um rigoroso inverno castiga a Áustria. O organismo de Beethoven, debilitado pela intensa atividade e pela falta de trato, não resiste a uma pneumonia.


Na manhã de 26 de março de 1827, Beethoven entra em agonia e perde a consciência. Ao cair da noite, morre.


Revolucionaria a arte musical, criando uma obra arrojada e gigantesca. Suas composições, em geral, são intensamente românicas, marcadas por um trágico sentimento da existência. Mas, cuidadosamente elaboradas, essas obras seguem, com frequência , as normas do classicismo.


"Minha vida são minhas notas", disse Beethoven certa vez. De fato, inteiramente dedicado à música, na solidão de seu triste mundo de silêncio, legou à humanidade um universo de sons de valor inestimável.

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