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Teoria da aprendizagem

Todo animal aprende. Em seu meio natural, repetem-se situações que produzem uma sequência de comportamentos que se grava em sua memória.



Imagem de Tibor Janosi Mozes por Pixabay



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Quando uma onça encontra, sempre no mesmo lugar, um grupo de animais menores bebendo água, ela passará a procurar sua caça nesse lugar. Sob o continuado ataque da onça, os animais buscarão outro local para beber água. A cada passo, o animal encontra experiências que determinam e alteram seu comportamento. Quando vemos um urso andando de bicicleta no circo, ou um cachorro obedecendo ao comando de seu dono, evidencia-se ainda mais a capacidade que o animal tem a aprender, mesmo que a coisa aprendida não faça parte de um comportamento comum à sua espécie.


Quando duas crianças aprendem que 3 mais 6 é igual a 9, darão a resposta certa sempre que encontrarem os símbolos "3+6", escritos ou falados. Mas se a questão for colocada invertendo-se os termos ("6+3"), uma poderá ficar perturbada pela inversão, enquanto que a outra poderá responder 9, imediatamente. Nesse caso, a primeira criança simplesmente "decorou" uma imagem visual ou uma sequência sonora, enquanto a outra aprendeu a utilizar um raciocínio matemático.


Descobrir as etapas do processo de aprendizagem é importantíssimo para construção de uma teoria satisfatória. Durante anos, psicólogos ligaram-se a duas correntes principais: a teoria da resposta ou motora, segundo a qual a aprendizagem é resultado de um processo casual de tentativa-e-erro, em que a solução aparece por acidente; e a teoria da compreensão inata, que forma que as relações são percebidas automaticamente pelo sujeito da experiência. Mas, entre essas duas posições existem numerosas outras tendências.


Na Universidade de Wisconsin, realizou-se uma séria de estudos a fim de investigar, e, se possível, unir, essas posições aparentemente opostas.


A maior parte das experiências foi feita com macacos, pois esses podem ficar sob observação permanente, permitindo o exame, por parte dos psicólogos, de todos os problemas que surgem durante o processo de treinamento.


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Um teste de discriminação


Uma equipe de psicólogos chefiada por Harry e Margaret Harlow (Figura 2) procurou determinar se os macacos seriam capazes de iniciar a aprendizagem pelo processo de tentativa-e-erro, para daí evoluírem para a solução de problemas através da compreensão da situação.


Figura 2. Harry e Margaret Harlow. Fonte da imagem: earch.library.wisc.edu


Na primeira fase do estudo, fazia-se um teste de discriminação simples. O macaco tinha que escolher entre dois objetos diferentes em cor, forma e tamanho. Se levantasse um deles, encontrava em baixo uma porção de alimento, como recompensa. Se levantasse o outro, nada encontrava. A fim de impedir que a recompensa fosse associada simplesmente à posição do objeto, isto é, à direita ou à esquerda do macaco, os pesquisadores , de vez em quando, alteravam a ordem dos objetos. Os treinos prosseguiram até que o macaco escolhesse sempre o objeto certo, aquele que o recompensava com alimento.

O teste foi repetido muitas vezes, usando-se centenas de pares de objetos diferentes. O macaco era treinado para resolver vários problemas, todos do mesmo tipo, apresentados sob formas diferentes.


Nas primeiras etapas desse teste, os animais aprendiam pelo processo de tentativa-e-erro. Mas, à medida que resolviam uma série de problemas do mesmo tipo, seu comportamento se modificava: cada problema novo era aprendido com mais rapidez. Por fim, os macacos mostraram uma compreensão global da situação, isto é, passaram a levantar o objeto certo numa única tentativa. Quando escolhiam o objeto errado, imediatamente mudavam para o correto, e nunca mais se enganavam.


O teste parecia indicar que tentativa-e-erro e compreensão constituem duas fases diferentes de um longo processo. Não se trata de capacidade diferentes, mas de etapas sucessivas da aprendizagem.


Essas mesmas experiências foram feitas com crianças, entre dois e cinco anos. A maioria delas cometia muitos erros nas primeiras fases do teste; aos poucos, aprendia a resolver o problema numa só tentativa. Em média, as crianças aprendiam mais depressa que os macacos, porém cometiam o mesmo tipo de erro. Por outro lado, os macacos mais "espertos" aprendiam mais rapidamente que algumas crianças.


Esses cientistas chamaram tal processo de "aprendizagem progressiva para a formação de um conjunto de aprendizagem". Isso significa que o indivíduo aprende um conjunto organizado de comportamentos que lhe permitem resolver certo tipo de problema. À medida que esses "conjuntos de aprendizagem" se acumulam em sua experiência, o indivíduo vai compreendendo coisas, o que lhe permite enfrentar situações novas. Isso significa que ele vai aprendendo mais depressa, incorporando sempre novos conjuntos ao seu conhecimento.


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A inversão do teste


Continuando a experiência, a equipe de Harlow passou a treinamentos muito mais complicados. Por exemplo, criou uma confusão propositada, invertendo as condições do teste de discriminação. Dessa forma, o objeto que antes era correto deixou de conter a recompensa, e o objeto anteriormente errado passou a escondê-la.



A primeira vez que crianças e macacos enfrentaram essa situação erraram muito. Pouco a pouco, diminuíram o número de erros até que, finalmente, atingiram o desempenho perfeito: modificavam sua escolha assim que erravam, trocavam imediatamente o objeto que já fora recompensado muitas vezes pelo que nunca recebera prêmio. Nesse teste, as crianças aprendiam muito mais depressa que os macacos.


Numa experiência ainda mais complicada, com macacos já treinados nessa inversão do teste de discriminação, o lugar da recompensa era invertido em apenas uma das tentativas, depois, voltada à posição original. Os macacos, após muitos problemas, passaram a ignorar a única inversão e , por incrível que pareça, demonstravam considerá-la um erro do cientista que conduzia a experiência.


Uma das descobertas mais surpreendentes dessa pesquisa foi que, uma vez formados os conjuntos de aprendizagem, os macacos conseguiam guardá-los na memória por muito tempo e utilizá-los no momento adequado. Verificou-se que, após um ano ou mais, o animal readquire em minutos a habilidade para resolver problemas que levara muitas semanas para aprender a solucionar.


Outras pesquisas, como as de Augusta Alpert, na Universidade de Colúmbia, e Eunice Mathieson, na Universidade de Minesota, parecem confirmar as teorias de Harlow: não há provas de que macacos ou crianças já nasçam com a capacidade de resolver problemas pro uma súbita compreensão natural. Um cérebro não treinado permite, no máximo, um comportamento de tentativa-e-erro.


Com o treinamento, o indivíduo acumula soluções aprendidas, em ordem crescente de dificuldade. Isto é, à mediada que sua experiência aumenta, ele desenvolve maior número de padrões de resposta ou conjuntos de aprendizagem, que serão aplicados à solução mais rápida de problemas cada vez mais complexos. Isso tudo parece indicar que tanto os animais como as criaturas humanas aprendem a pensar. O raciocínio não se desenvolver espontaneamente, resulta de um longo processo de aprendizagem.


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Quem aprende?


Embora qualquer animal seja capaz de aprender, essa capacidade varia de uma espécie para outra. Ao que tudo indica, os mamíferos têm uma capacidade de solucionar problemas mais desenvolvida que a das aves e dos peixes, por exemplo.


No século passado, predominava uma teoria segundo a qual o animal nasce com tendências a reagia de determinada maneira diante de estímulos específicos. Esse processo dependeria do funcionamento conjunto de dois sistemas: o sensorial e o motor. O primeiro é constituído pelo sistema nervoso e pelos sentidos: visão, tato, olfato, etc. O segundo se encarrega de controlar os movimentos do corpo e determinar a maneira como o animal age sobre seu meio natural.


Assim, quanto mais complexo fosse o sistema sensorial e quanto mais desenvolvido o sistema motor, maior seria a capacidade de resolver problemas desse ou daquele animal. A diferença de uma espécie para outra seria, pois, quantitativa ( dependendo do lugar que ela ocupasse na hierarquia animal). Adotando essa teoria, a maior parte dos psicólogos concentrou seus estudos sobre aprendizagem em poucos mamíferos, sobretudo o rato, mais adaptável aos testes de laboratório.


O psicólogo M. E. Bitterman, porém, não estava satisfeito com as experiências que vinham sendo desenvolvidas. Resolveu então reunir uma equipe para realizar um estudo comparativo da aprendizagem de macacos, ratos, pombos, tartarugas e peixes.


Os primeiros testes eram de reversão de hábitos. Diante das alternativas A e B, o animal é recompensado toda vez que escolhe A, até que essa preferência fique bem fixada. Imediatamente, a recompensa passa para B, onde permanece até que o novo hábito se estabeleça, eassim por diante.


Nessa experiências, ratos e macacos demonstraram progressos de aprendizagem: erravam muito nas primeiras reversões, mas a transferência era cada vez mais rápida. Os pombos conseguiram um desempenho superior ao das tartarugas. Já os peixes não demonstraram nenhum progresso: executavam as últimas reversões no mesmo intervalo de tempo das primeiras.


Essas constatações, por si, nada acrescentavam às teorias conhecidas. Mas analisando as diferenças entre as espécies estudadas, R. C. Gonzales (da equipe de Bitterman) descobriu um fator novo, relacionado com o desenvolvimento do cérebro nos vários animais estudados.


Existe uma parte do cérebro que é fundamental nos mamíferos, inexistente nos peixes e muito pouco desenvolvida nos répteis: o córtex cerebral, onde corre a maior concentração de células nervosas no organismo. Retirando essa parte do cérebro de um rato, Gonzales observou que, ainda assim, o rato aprendia mais do que o peixe.


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A atuação dos elefantes


Muitos fatores, externos e internos, influem no processo de aprendizagem. Mas o indivíduo precisa estar aparelhado para aprender. E esse aparelho é o cérebro. Parece estar fora de dúvida que o tamanho do cérebro é um fator decisivo na capacidade de aprender. E não é apenas o volume total do cérebro que importa, mas sobretudo o do córtex.


A quantidade e o tamanho das células nervosas existentes no cérebro também são importantes. Quanto maior for a célula nervosa, maior número de conexões poderá fazer, o que permite associações mais complexas de aprendizagem. Interessado na influência do tamanho cerebral sobre a aprendizagem, o etólogo B. Rensch (Figura 3) executou um teste comparativo no Instituto Zoológico de Münster com ratos e camundongos, esquilo gigante e esquilo anão; raças pequenas e grandes de galináceos, etc. Os resultados confirmaram quem, de fato, as raças e espécies maiores aprendem muito mais.


Figura 3. B. Rensch. Fonte da imagem: wikipedia


A partir daí, Rensch decidiu testar a capacidade de aprendizagem de um elefante, cujo cérebro pesa 6 kg. Seu principal objetivo era saber se um elefante treinado "compreendia" o que aprendeu, e se seria capaz de um comportamento criativo. Viajou para as florestas do sul da Índia , onde elefantes executavam tarefas úteis ao homem. Lá descobriu que eles se comportavam como se "soubessem" o que deviam fazer. Esses animais conheciam cerca de 24 comandos para o trabalho, mas, com um mínimo de ordens, puxavam e empurravam toras de madeira, colocando-as num caminhão.

Em Münster, a equipe de Rensch testou a discriminação visual de um elefante de cinco anos, utilizando vinte pares de cartões, cada qual com padrões de forma e cor diferentes. O da esquerda era sempre recompensado por um prêmio. O animal não só aprendeu as vinte respostas corretas, como ainda demonstrou claramente que sabia qual era o símbolo errado, pois afastava-se dele. E os cartões errados não estavam associados a nada desagradável; simplesmente, não traziam recompensa. em todos os testes, o animal revelou também sua proverbial memória: um ano depois, lembrava-se de mais de 70 % do que aprendera.


Mas, para assegurar que a capacidade mental do elefante se deve ao seu enorme cérebro, seria preciso comparar seu desempenho ao de outro animal da mesma família. Infelizmente, o elefante não tem parentes próximos.


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A idade e a aprendizagem


Existe uma relação íntima entre idade e capacidade de aprender. Durante a infância e a adolescência, o aprendizado progride com grande rapidez. Novos padrões de aprendizagem são incorporados à experiência do indivíduo num ritmo que decresce com a idade. O adulto médio aprende menos por que seu ambiente imediato oferece-lhe menos oportunidades de aprender. Entretanto, aprende mais rápido que a criança. Essa diminuição ao predomínio de velhos hábitos, que impedem a aquisição de novas formas de solucionar problemas.


Em animais inferiores, como as aves, forram descobertas idades críticas em que o aprendizado é elaborado e definitivo. Por exemplo, logo depois de descascado, o pinto ou o patinho seguem qualquer objeto que se mova, e se comportará em relação a ele como se este fosse sua "mãe".


Entre crianças, observou-se que há idades "ótimas" para a aquisição de certos hábitos, como os sanitários, e que tentar treinar uma criança antes da idade adequada é inútil e até pode ser prejudicial.

Comentários

  1. Interessantíssimo este artigo!
    Muito legal. Foi uma leitura muito gostosa. Ainda mais eu com uma filhinha de 2 anos que está aprendendo muito!
    Acho que é o instinto animal mesmo, né?
    Aproveito para falar que trabalho com gramas de vários tipos e entregamos para todo o Brasil para cidades e estados tais como: Gramas para São Paulo, Gramas para Minas Gerais, Gramas para Santa Catarina, Gramas para Campinas e região, Gramas para Belo Horizonte e região.
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