Pular para o conteúdo principal

Doutor Hipócrates

Hipócrates é considerado por muitos uma das figuras mais importantes da história da Medicina.


Fonte da imagem: Wikipédia/CAETANO, Joaquim Oliveira (2010), "Os "Morgados" do Museu de Évora", in: Cenáculo, Boletim online do Museu de Évora, disponível em http://museudevora.imc-ip.pt/Data/Documents/Cenaculo%204/B4morgado2010.pdf


"Prometo que, ao exercer a medicina, mostrar-me-ei sempre fiel ao preceitos da honestidade, da caridade e da ciência, penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos e minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra; nunca me servirei da minha profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime.

Se eu cumprir estes juramento com fidelidade, gozem para sempre a minha vida e minha are de boa reputação entre os homens. Se o infringir, ou dele me afastar, suceda-me o contrário."


Este é o juramento pronunciado pelos médicos de todo o mundo, ao se iniciarem na profissão. Solenemente, ele é repetido em coro atribuída a Hipócrates. O valor desse homem, tido como o "pai da medicina", pode ser julgado pelas palavras do juramento.


Leia também:


Que foi Hipócrates?


Hipócrates viveu no século V a.C. Há quase 2.500 anos, portanto, ele determinou normas de comportamento para médicos que são válidas em todas as épocas, sejam quais forem os progressos da ciência. Sua vida não é conhecida com exatidão. Como acontece com todos os homens de fama, os fatos reais ganham uma aura de lenda. Por esse motivo, as volumosas biografias de Hipócrates, encontradas em antigas bibliotecas, narram fantasiosamente episódios de sua infância, descrevem suas viagens, relatam mesmo suas ásperas discussões com os médicos do tempo. Estes se utilizam mais da magia do que a ciência. Hipócrates, não. Como verdadeiro precursor que foi, realizava até trepanações do crânio, sob o olhar atento de seus discípulos. Praticava essa operação, audaciosa para sua época, a fim de eliminar o excesso líquido encefálico, causador da perda da visão. É realmente maravilhoso constatar que esta mesma intervenção cirúrgica, pela mesma razão, somente nos fins do século XIX seria retomada, embora no Egito fosse prática corrente.


Hipócrates era grego e nasceu em 460 a.C na ilha de Cós, na costa da Ásia Menor. A data e sua morte é incerta: alguns biógrafos dizem que viveu 85 anos, outros lhe dão 110 anos. Foi sepultado em Larissa, na Tessália, e durante muitos séculos o povo da cidade venerou o túmulo de Hipócrates, onde um enxame de abelhas tinha construído seus favos. Supunha-se que o mel dali recolhido tinha grandes qualidades curativas. Essa crença demonstra até que ponto a fama do sábio havia propagado.


Leia também:


Um descendente dos deuses


Dizia-se que Hipócrates era descendente de Asclépio, deus grego da medicina (o Esculápio dos latinos), por arte de pai, e de Hércules, por parte de mãe. Outra tradição afirma que foi membro de uma sociedade secreta conhecida por Asclepíades (dos filhos de Asclépio), que congregava os sábios e estudiosos.


De acordo com a lenda, Hipócrates teria inicialmente praticado a medicina em Cós, tratando dos doentes que buscavam as fontes termais da cidade. Viajou pelas cidades e países do mundo grego, estudando a constituição física das populações e suas doenças mais frequentes. Teria chegado até Cnido (onde havia uma escola de medicina), Tesália, Egito e Cítia. Entre seus clientes figuravam muitos chefes de Estado. Conta que recusou um convite de Artexerxes I para atender ao exército persa, vitimado por uma epidemia. Para isso alegou que sua honra não lhe permitia socorrer inimigos de sua pátria.


Leia também:


A Coleção Hipocrática


Por volta de 300 a.C. começaram a circular textos de medicina que ficaram conhecidos como Coleções Hipocrática. O nome de Hipócrates merceia tanto respeito que servia para englobar num só grupo os trabalhos inspirados em sua doutrina.


Por esta razão tem sido posta em dúvida a autoria desses livros: se alguns seguramente pertencem ao mestre, outros se devem a discípulos e seguidores. A Coleção compõe-se de 53 tratados, nos quais podemos descobrir os ensinamentos de Hipócrates e ter uma ideia do que pensava. A ele são atribuídos os seguintes escritos: O Juramento, Tratado sobre o Mal Sagrado, Os ares, as águas e os Lugares, O Prognístico, o primeiro e o terceiro livros do Tratado sobre Epidemias, e mais A Medicina Antiga e Os Aforismos.


A coleção Hipocrática está entre as primeiras obras que abordaram a medicina como ciência natural e experimental. Hipócrates separou a medicina da filosofia, tirando-a do caminho da especulação abstrata para colocá-la na trilha do estudo racional. Em outras palavras, recorreu à razão para avaliar os dados extraídos da experiência.


Essa orientação contrariava os médicos feiticeiros, que atribuíam todas as doenças a forças divinas e misteriosas. A superstição reinante na época dava margem a estranhas receitas. Por exemplo, exigia-se que o doente de epilepsia (chamada "o mal sagrado") vestisse roupas negras, não colocasse um pé sobre o outro e não usasse pele de cabra. Tudo isso para afastar o demônio causador da moléstia...


Leia também:


O mérito que ficou


Hipócrates estabeleceu os passos principais a serem seguidos pelo médico: primeiro, descobrir os sintomas ou sinais da doença; depois, a diagnose, ou seja, a identificação da moléstia; em seguida, a terapia, isto é, os meios de cura. Uma vez que a própria natureza humana reage às doenças, a tarefa que ficava reservada ao médico era a de ajudar ao máximo esta capacidade natural de restabelecimento.


"Os sintomas não são a doença". Essa afirmação foi uma descoberta valiosa da escola hipocrática. Hipócrates descreveu sintomas de muitas doenças e indicou seu tratamento. Deixou extenso receituário, à base de plantas, que hoje está inteiramente superado: na época não se conheciam bem a anatomia (constituição do corpo) e a fisiologia (seu funcionamento). Seu mérito foi apontar, com dedo de mestre, o método pelo qual a medicina se tornaria uma ciência.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Homero: o poeta das epopéias

Teoria da aprendizagem

História e arte de Johann Sebastian Bach