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Voltaire: Filosofia e Sátira

Certa vez um nobre francês, desdenhando o nome de Fraçois arie Arouet, Voltraire, pela sua origem de baixa nobreza, recebeu como resposta: "O nome que trago, meu senhor, é obscuro. Mas eu, ao menos, honrei-o."


Fonte da imagem: Workshop of Nicolas de Largillierre - Obras derivadas deste ficheiro:  Voltaire-2008-11-24.jpg http://www.deism.com/images/Voltaire.jpg (old image: From en wikipedia)


Por essa resposta, considerada insolente, Voltaire, pagou com uma estada forçada na Bastilha, seguida de um exílio na Inglaterra.


Essa não foi a primeira nem seria a última vez e que Voltaire se veria às soltas com a prepotência. Seu valor como pensador vem justamente do fato de ter dito o que disse na época em que viveu.


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Para começar, uma prisão


Voltaire nasceu em Paris, em 1694. Filho de um tabelião (notário), ficou órfão de mãe muito cedo. Aos dez anos, em 1704, foi interno no Louis le Grand, colégio de jesuítas, onde permaneceu por sete anos. Aos dezesseis anos, iniciou o estudo de direito, obedecendo ao desejo do pai. Mas tarde, Voltaire abandonaria a advocacia, observando que se desgostara diante da "profusão de coisas inúteis com que haviam desejado carregar sua cabeça".


Ainda jovem, viu-se entregue aos cuidados do Marquês de Châteauneuf, que se dirigia para a Holanda, na qualidade de embaixador. Mas Voltaire apaixonou-se por uma jovem francesa residente em Haia, filha de um refugiado protestante. Foi demitido e voltou a Pais. E tornou-se notário de um procurador de província. Nessa época começou a escrever sátiras, contra tudo o contra todos. Por causa dessas sátiras foi levado para a Bastilha pela primeira vez.


Foram onze meses de encarceramento. Saiu da prisão em 1718; havia escrito o começo de um poema épico, La Henriade, e uma tragédia completa, Édipo. Foi na ocasião da encenação dessa tragédia que adotou o pseudônimo de Voltaire, pelo qual ficaria conhecido. Nesse mesmo ano de 1718 a Comédie Française encenou o Édipo. Era o começo da fama.


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Um rico herdeiro


O ano de 1721 vai encontrar Voltaire disputado por todas as rodas mundanas parisienses. Com a morte do pai, tornou-se herdeiro de uma razoável fortuna que logo ampliou. Já era rico e famoso quando solicitou licença para publicar o poema Henrique IV ou A Liga (La Henriade), iniciado na prisão. A permissão lhe foi negada, mas nem por isso, deixou de dar a público sua obra: divulgou-a clandestinamente.


Aos poucos, Voltaire passou a desenvolver inúmeras atividades, que foram desde a participação na vida mundana, até os negócios, mas sempre dedicando-se à literatura.


Em Rouen, onde publicou La Henriade, meteu-se numa questão com um cavaleiro. Acabou sendo espancado e lançou um protesto contra a violência de que foi vítima. Seu protesto resultou em nova prisão, por pouco tempo. Um mês depois saía da Bastilha e era conduzido a Calais, de onde embarcou para a Inglaterra, exilado.


Para Voltaire, a Inglaterra era o país ideal, onde poderia encontrar a liberdade, conforme confessara a um amigo, em cartas.


Por isso mudou-se, para lá não lhe causou grande transtorno. Ao contrario: foi o inicio de uma importante fase de sua vida.


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Depois da Inglaterra, mais trabalho


A temporada de dois anos na Inglaterra, 1726 a 1728, foi fundamental na vida de Voltaire. Aprendeu inglês, descobriu a obra de Shakespeare, interessou-se por pesquisas científicas e, sobretudo, compenetrou-se das ideias de tolerância religiosa desenvolvidas na sociedade britânica.


Retornando à França, aumentou sua fortuna e passou a produzir febrilmente: publicou a História de Carlos XII (1731), e, ainda, Brutus (1730) e Zaíra (1732), duas peças teatrais encenadas em Paris, onde introduziu recursos shakespearianos na tragédia clássica francesa.


Com o Templo do Gosto (1733) e, principalmente, com as Cartas Filosóficas (1733), criticou e satirizou os poetas franceses, em comparação com os artistas e com a sociedade inglesa. Nesta última obra, trata de religião, filosofia, política e literatura, entremeadas de ataques à sociedade francesa. Nova perseguição. À obra foi condenada como perigosa à religião e à sociedade, o que não impediu sua difusão e popularidade.


A partir dessa época, Voltaire refugiou-se no castelo de Cirey, em companhia de Mme. de Chàtelet, onde permanece durante quinze anos de incessante trabalho. Escreve de tudo, sob as mais variadas formas e sobre diversos assuntos. Tragédias como:  A morte de César, Maomé, Mérope, Semíramis; O Filho Pródigo, comédia; O Mundano, sátira filosófica.


Encontrou seu modo mais caraterístico de expressão nos contos e romances satíricos, com os quis se lançou à desmistificação das verdades oficiais da época, disfarces da opressão social. Cândido ou Da. Inocência é a mais célebre dessas obras satíricas. De estudo histórico escreveu Século de Luis XIV e Ensaio sobre os Costumes.


De Cirey, Voltaire estabeleceu correspondência com Frederico II, soberano da Prússia, que se dizia admirador de suas obras. Isso resultaria num convite para a corte de Potsdam, como hóspede do Império.


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A vida na corte


Reconciliado com o rei francês, Voltaire voltou a frequentar a corte. Foi agraciado com títulos e honrarias: historiógrafo da França e Gentil-Homem da Câmara do Rei. Finalmente, foi eleito para a Academia Francesa, em 1746.


Após a morte de Mme. de Châtelet, em 1749, resolveu aceitar o convite do imperador prussiano. Na Prússia foi festejado como nenhum outro, recebendo o título de Camareiro-Mor e honrarias como a Cruz da Ordem do Mérito.


Mas durou pouco a amizade entre Frederico II e Voltaire. O imperador, extremamente ciumento e vaidoso, irritou-se com as correções feitas por Voltaire e seus poemas em francês.


Em 1752, na Prússia, Voltaire lançou o Panfleto do Doutor Akakia, sátira ao presidente da Academia de Berlim. Foi o suficiente para ter que fugir do pais, tendo em seu encalço a polícia do imperador. Voltaire levava consigo, um volume de poesias de Frederico II, "com o qual pretendida fazer rir toda a Europa". Alcançado, devolveu o livro e instalou-se na Alsácia.


Três anos depois, mudou-se para Ferney, possessão francesa da Suíça. Torna sua residência um asilo inviolável até o fim de sua vida.


Ferney ficou sendo um centro cultural, na Europa do século XVIII. Aí, o filósofo recebia uma multidão de intelectuais, exercendo verdadeira soberania no mundo das ideais e das letras.


De Ferney, passou a se corresponder, com vários intelectuais, entre os quais, D'Alembert. Colaborou na redação da Enciclopédia juntamente com Diderot, Montesquieu, Rousseau, D'Alembert, Buffon, Helvetius e outros grandes nomes. Graças à interferência de Madame Pompadour, a obra foi completada: 36 volumes, dos quais dois eram de pranchas ilustradas que mostravam os instrumentos e as máquinas utilizadas na época. Na Enciclopédia estavam reunidas obras das mais importantes, de divulgação das ideias contra a ordem estabelecida. Era um instrumento para propagação da nova filosofia liberal. Com este trabalho, os filósofos iluministas influenciaram decisivamente a política dos chamados déspotas esclarecidos. E marcou uma época.


Contra a religião católica


Incessante, continua a produção de Voltaire: contos, romances, tragédias, poemas e, sobretudo, obras satíricas que, não podendo assinar, publicava anônima e clandestinamente.


Lançou-se violentamente contra a Igreja Católica. "Esmaguemos o infame", dizia. Ao mesmo tempo, fazia constantes campanhas em favor dos pobres da região. No seu refúgio em Ferney, Voltaire continuou exercendo o seu papel de filósofo, distribuindo terras, criando escolas, defendendo os protestantes e realizando inflamadas campanhas contras erros judiciários. Aos olhos do povo, surgia como a encarnação da justiça social. No entanto, sua posição estava longe disso. Entendia que o povo teria que ser "guiado" e não instruído, pois "não é digno de ser". Dizia: "Parece-me essencial que existam vagabundo ignorantes".


Depois de 28 anos de ausência, Voltaire regressou a Paris em 1778. Foi recebido como herói popular. Quando da estreia de sua peça Irene, teve seu busto coroado em cena aberta. Morreria pouco depois, aos 84 anos de idade. Seu sepultamento, apesar das dificuldades em dar-lhe sepultura cristã, foi na Abadia de Scelliéres. Em 1791, numa cerimônia de grandes pompas e honrarias, seus restos mortais foram transladados para o Panteão.


Voltaire deixou uma obra imensa. Com seus trabalhos filosóficos e de ficção, em nome da Razão humana, conseguiu levar ao ridículo e à desmoralização as instituições político-religiosas da época absolutista. Preparava assim o caminho que breve conduziria á Revolução Francesa (1789), que resultou na morte de muitas pessoas inocentes. Nas obras históricas, Voltaire fez de seus relatos um jogo sempre renovado de paixões humanas: "Há umas dose batalhas", registrava ele numa carta, "das quais não falei graças a Deus, porque eu escrevo a história do espírito humano e não uma crônica".


Suas caras dirigidas a soberanos, intelectuais, homens de negócios e amigos, são essenciais para a compreensão de seu pensamento.

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