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Antes da descoberta da teoria da evolução

Antes de Charles Darwin, outro grande gênio já tinha hipóteses sobre a teoria da evolução das espécies.


Fonte da imagem: Wikipedia/Charles Thévenin


Os membros da Linnean Society, uma das muitas sociedades científicas de Londres, bocejaram entediados. O secretário acaba de ler um maçudo trabalho de título de pomposo: "Sobre a tendência das espécies das variedades e espécies pelos meios naturais da seleção". Era 1º de julho de 1858, e, embora todos os presentes fossem cientistas de firme reputação, o relatório lido aquela noite não mereceu senão uma educada atenção. O único comentário partiu de um certo Professor Haughton, que afirmou em uma revista científica: "Tudo o que há de correto em tal trabalho não constitui novidade". Ao fim do ano de 1858, o presidente da Linnean Society lamentou que o período "não tenha sido marcado por nenhuma daquelas descobertas importantes que outrora haviam revolucionado os diversos campos da ciência.


O desprezado relatório fora elaborado pro dois membros da Linnean Society, C. Darwin e R. A. Wallace, ambos ausentes da mencionada reunião. Menos de ano depois um dos autores reapresentou o trabalho, agora em livro, com maior riqueza de detalhes e teses mais claras. Isto produziu um dos maiores escândalos da história da ciência e uma violentíssima polêmica, que revolucionou a biologia e influiu na sociologia, filosofia e história, abalando os postulados da religião oficial. O trabalho agora chamava-se "Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural" ou "A preservação de raças favorecidas na luta pela existência". Seu autor era Charles Darwin.


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As ideias fixas


Antes que Darwin destruísse os velhos conceitos e remodelasse a história da vida sobre o planeta, as ideias, que prevaleciam eram as da teoria "fixista", que afirmavam ser as espécies vivas imutáveis.


Como até o século XIX fosse extremamente ilimitado o conhecimento dos processos orgânicos, e houvesse uma ignorância quase completa sobre os documentos geológicos e paleontológicos, a hipótese das espécies fixas não sofria muita oposição do ponto de vista científico e era mesmo um dogma teológico.


Georges Cuvier. Fonte da imagem: Wikipedia/James Thomson (1789-1850)


Em pleno século XIX, homens de ciência com largos méritos, como Georges Cuvier (1769-1832), fundador da paleontologia dos vertebrados, afirmavam: "a espécie se perpetua sem alterações". Para explicar o aparecimento das sucessivas floras e faunas, diziam que cataclismos violentos haviam aniquilado certas espécies, seguindo-se a criação de outras que permaneciam até o cataclismo seguinte, e assim por diante. A existência de cada uma das espécies dependia, portanto de um ato especial da Criação. Opiniões como essa oriundas de sumidades científicas da época, dificultavam a tentativa de explicar o fenômeno pela evolução natural.


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As ideias antigas


Os gregos Anaximandro (séc. VI a.C.), Empédocles (V a.C.) e Aristóteles (IV a.C.) deram os primeiros passos para a compreensão da história da vida. Entretanto, dentro de suas possibilidades, as contribuições achavam-se voltadas mais para a destruição da natureza que para a compreensão dos mecanismos de funcionamento.


Pondo de lado algumas especulações comparáveis a certos mitos e magias de povos primitivos, em cujas crenças existe latente um germe de hipóteses evolucionistas, o conceito biológico que os filósofos gregos puderam formular foi o de uma progressão das formas orgânicas das mais ínfimas e simples ate as mais elevadas e complexas, nas quais se incluía o homem. Entretanto, tal conceito era abstrato, não se perdendo a fatos que pudessem ser comprovados. Era apenas uma intuição genial. Anaxágoras (500?-428 a.C.) chegou mesmo a supor que as espécies de animais domésticos derivavam de similares selvagens. Contudo, faltavam aos gregos técnicas e materiais de pesquisa com que pudessem ultrapassar os limites da pura especulação.


Com o advento do cristianismo ganhou corpo a ideia da espécie fixa. Cada ser vivo era teologicamente interpretado como um "padrão da Criação", ou seja, a forma era fruto de um ato divino, um reflexo do próprio poder do Criador, e, como tal, imutável em si mesma.


A primeira objeção séria levantada contra essa teoria é devida a Santo Agostinho (354-430), que dizia ser a intervenção divina compatível com um mundo capaz de desenvolver-se, "da mesma maneira que no grão estão contidas invisivelmente todas as partes da futura árvore".


Entretanto, essa ideia, nascida da observação do desenvolvimento individual, manteve-se confusa quanto ao fenômeno da evolução das espécies.


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Os primeiros críticos


A partir do século XVII, o progresso do conhecimento científico ofereceu a possibilidade de a investigação basear-se em fatos concretos, e a questão voltou à baila. Na lista dos pioneiros, não podem ser esquecidos os nomes Hooke (1635-1703), John Ray (1627-1705), Maupertuis (1698-1759), Buffon (1707-1788), Erasmus Darwin (1731-1802), avô de Charles Darwin, e Geoffrey de Saint-Hilaire (1772-1844), que elaborou uma tese onde afirmava terem as espécies mais evoluídas surgido ocasionalmente de monstros capazes de se desenvolver em ambiente propício. Esses homens consideravam a evolução como uma necessidade, mas foram incapazes de tirar dos fatos conhecidos, ainda escassos provas que sacudissem a ignorância secular e abalassem a oposição unânime dos teólogos, cujas premissas nada tinham de científicas.


A hipótese de Lamarck


Apenas um cientista de grande envergadura, formulou, antes de Darwin, uma hipótese evidenciando a necessidade da evolução orgânica para compreender o aparecimento das espécies atuais: Jean-Baptiste Lamarck.


Publicou seu livro, Philosophie Zoologique, em 1809 (ano em que nascia Charles Darwin). Nele, Lamarck argumentava que uma grande mudança no meio ambiente provocaria , em uma espécie animal, a necessidade de modificar seus hábitos. Com isso, colocava em evidência o fenômenos da adaptação, mostrando que os seres vivos se encontram sempre adaptados em relação aos ambientes em que vivem. Tal afirmação, importantíssima, permanece válida até hoje, e sobre ela construíram-se as mais modernas concepções sobre a evolução das espécies.


De posse dessa ideia e mais uma pertinaz observação da natureza, elaborou sua teoria da evolução, que fundamentou em duas suposições: a lei do uso e desuso, e a transmissão de características adquiridas de pai para filho, ou seja, a lei da herança dos caracteres adquiridos.


Quanto mais uma parte do corpo é usada, mais se desenvolve. Por outro lado, as partes não usadas se atrofiam e enfraquecem. De tanto malhar ferro, o ferreiro adquire um bíceps poderoso. Mas um braço que por algum motivo ficou muito tempo imóvel se atrofia. Lamarck relacionou, então, que se as características adquiridas individualmente, pelo uso e desuso de órgãos, eram transmitidas de pai para filho, aí se encontrava a chave para compreender a evolução dos seres vivos.


Os ambientes estão em constante mudança: as florestas, pouco a pouco, se transforma em tundras, as tundras em desertos e os desertos em lagos ou novas florestas. Os seres vivos necessitam, portanto, adaptar-se continuamente a essas variações, estimulando ora este, ora aquele órgão e deixando de usar ora esse ora outro. Se essas adaptações individuais se transmitem de geração em geração, a espécie será aos poucos plasmada de novo pela transformação do ambiente. Assim, por exemplo, ele imaginou que as girafas tiveram ancestrais de pescoço normal, que pastavam em prados. Mas esse ambiente foi-se modificando, a erva sendo substituída por árvores paulatinamente mais altas. Os animais foram sendo forçados a procurar seu alimento sempre mais para cima, nas copas das árvores, e cada geração tinha que forçar um pouco mais o pescoço. A geração seguinte herdava de seus pais essa modificação, pescoço um tanto mais longo, e somava a ela seus próprios esforços, que também transmitia aos filhotes. No fim do processo, a girafa apresentaria seu estranho aspecto atual.


As primitivas cobras deveriam ter possuído pernas, como outros répteis. Mas sua adaptação a um sistema de vida rastejante fez com que os membros desaparecessem com o desuso, após várias gerações. Os cactos, depois que seu ambiente se transformou em deserto, levados pela necessidade de economizar água, acabaram criando mecanismos de defesa especiais.


Mas faltou a Lamarck o controle experimental. Embora bem elaborada e dotada de conceitos novos, submetida à experiência a teoria de Lamarck esfacelou-se. Um pesquisador, Weismann, cortou sistematicamente as caudas de vinte gerações de camundongos, e na vigésima primeira as caudas continuavam aparecendo tão longas como na primeira. Todas as tentativas de comprovar sua teoria fracassaram.


Hoje, a genética está convicta de que os caracteres adquiridos não são transmissíveis. Uma pessoa pode passar vinte anos a se queimar ao sol, que seu filho terá as mesmas possibilidades de nascer moreno que teria se seu pai morasse no polo.


A adaptação realmente ocorria, mas não como Lamarck supusera. E, apesar de tudo, Lamarck pagou caro por sua inteligente intuição. Botânico de grande dedicação e talento, dotado daquela universal curiosidade dos velhos naturalistas, se não se tivesse posto a falar de evolução teria provavelmente continuado com uma vida calma, respeitando pelo mundo científico da época, e hoje estaria semiesquecido. Mas suas opiniões evolucionistas impediram tudo isso. Como de fato, não podia provar o que afirmava, foi ridicularizado de maneira atroz e desonesta. o que para sua natureza de homem tímido deve ter sido terrível provação. Num debate público com Cuvier, este, brilhante e culto homem mundano, fez questão de chamar Lamarck de ignorante, desmoralizá-lo, sem no entanto discutir a sério a questão. Cuvier, cientista de bom calibre, comportou-se como charlatão, mas Lamarck, que não era polêmico, só poderia levar a prior num debate desses. Além disso, à sua maneira reservada simpatizada com a Revolução Francesa, chegando a dedicar alguns de seus livros "ao povo que quebrou seus grilhões da tirania". Na verdade, durante toda a Revolução, ele ficara cuidando de suas plantas no Jardim Botânico, na ala que hoje leva seu nome. Mas ter simpatizado com a República e defender  a teoria da evolução das espécies (que contrariava frontalmente as ideias bíblicas a respeito da criação), não eram coisas que o Governo do Imperador Napoleão pudesse ver com bons olhos. Já muito velho e quase cego, numa ocasião em que Napoleão recebia cientistas, Lamarck apresentou um livro dedicado a ele. Trava-se de um importante trabalho de meteorologia, ciência que estava nascendo. Despótico, Napoleão Bonaparte irritou-se, e e comparou o velho aos astrólogos. E o grande Lamarck, alquebrado, teve a fraqueza de chorar em público. Mas a História e Ciência deram a Jean-Baptiste Lamarck o lugar que sempre mereceu.


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O caso das mariposas coloridas


Por volta de 1800, nos arredores de Mancester, na Inglaterra, havia numerosos campos, com árvores recobertas de liquens. Tantos os troncos das árvores como os liquens eram de cores claras.


Qualquer pessoa que por ali passasse encontraria grande número de mariposas pertencentes à espécie Biston betularia (veja na imagem abaixo). No entanto, quase todos os insetos eram brancos, com pequena indecência de exemplares escuros. Depois a cidade tronou-se um dos grandes centros industriais da Inglaterra. A fumaça e a fuligem das fábricas invadiu os campos, eliminou os liquens e enegreceu os troncos das árvores. Ainda há grande quantidade de mariposas, mas agora quase todas negras, ficando as de cor clara reduzidas a um número insignificante.


Mariposa Biston betularia. Fonte da imagem: Desafiando a Nomenclatura Científica.


Este é um interessante exemplo de adaptação. As mariposas cuja cor se confunde com o tronco defendem-se melhor dos ataques dos pássaros. A explicação de Lamarck seria a seguinte: para ocultar-se melhor, as mariposas foram-se tornando paulatinamente mais escuras e transmitindo aos seus descendentes essas características.


Já vimos que isto não é possível, e a adaptação da espécie ocorreu de modo totalmente diverso, como explicaria mais trade Darwin: com os troncos brancos, as mariposas negras praticamente não se multiplicavam, pois antes que o pudessem fazer eram vítimas dos pássaros. Com o enegrecimento das árvores, a situação se inverteu, e agora são as mariposas brancas que se reproduzem em menor número. Darwin chamaria esse processo de evolução pela seleção natural dos mais aptos à sobrevivência.


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