Pular para o conteúdo principal

Contemplador atuante: Molière

Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière, foi um dramaturgo francês, além de ator e encenador, considerado um dos mestres da comédia satírica.


Fonte da imagem: Wikipedia/Pierre Mignard - The png version was converted to jpg at Quality "8" with Photoshop Elements 10


Em vez de estudar, o menino escapulia. O Colégio de Clermont e a perspectiva de tornar-se funcionário do governo não o atraíam tanto corno as burlescas encenações dos atores italianos da Com-media dell'Arte. Ser tapeceiro do rei, seguir a rendosa e tranqüila profissão do pai, era urna herança da qual já tinha desistido. O jovem Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière, desde cedo demonstrava suas inclinações pelo palco. Para encontrá-lo, bastava procurar pelos tablados monta-dos nas pontes sobre o Sena. Nascendo em 1622, Jean-Baptiste encontrou urna França especialmente propícia ao florescimento da arte. Luís XIV e seu ministro Cardeal Richelieu tinham consegui-do afirmar a suprema autoridade real. Foi o ápice do poder absolutista. E se o Rei Luis XIV era o "Rei Sol", a França deveria iluminar a Europa. Na política européia já era considerável a influência da França. E Luís XIV empenhava-se em projetá-la também no campo cultural.


O século XVII na França caracterizou-se pela procura da consolidação da unidade nacional. Foram criados estilos próprios, e desenvolveu-se o espírito artístico. Foi tão intenso o cultivo dos requintes da literatura, da pintura, da tapeçaria, da cristaleria, que se exacerbavam as demonstrações de luxo e preciosismo.


O teatro, em especial, vivia seu período glorioso: Paris era o centro das atividades teatrais. Se bem que prosperassem teatros em muitas cidades do interior, era na capital que atores e autores alcançavam a consagração definitiva.


Leia também:


O ator excomungado


Ainda que o rei incentivasse o teatro, financiado as companhias; ainda que o Cardeal Richelieu criasse novos teatros, como o Palais Cardinal, e o Palais Royal, e apesar de os espetáculos serem um divertimento muito apreciado, os atores da época eram condenados pela igreja. Foi preciso que Luís XIV assinasse urna lei, proibindo qualificar a de ator corno infamante, para que os interpretes fossem menos malvistos pela opinião pública.


Diante de toda essa realidade, Jean Baptiste, depois de diplomar-se em direito, decidiu dedicar-se definitivamente ao teatro. Juntou-se aos irmãos Béjart, adotou o nome de Molière e fundou uma companhia, o Ilustre Teatro. Algumas encenações em Paris foram suficientes para demonstrar que os 21 anos de Molière eram poucos para a experiência que a profissão exigia. O Ilustre Teatro não conseguiu concorrer com as já consagradas companhias do Hôtel de Bourgogne e do Marais. As dividas que contrai nessa empresa são grandes, as despesas insustentáveis. Molière acaba sendo preso. Com a ajuda do pai, consegue ser solto e vai, para o interior. Com os irmãos Béjart, integra-se no grupo de Charles Du Fresne, como qual percorreu várias cidades das provindas, encenando inúmeras peças.


Nessa peregrinação, Moliérei desenvolveu seu espírito observador, pesquisando diferentes tipos de personalidade: ricos nego-ciantes, médicos, padres. E de tal modo se aprofundou no estudo do caráter humano, que recebeu de Boileau, escritor contemporâneo, o apelido de "o Contemplador".


Mas a experiência do teatro no interior serviu-lhe também em outros campos: Molière exercitou-se como ator, interpretando; como diretor, arcando com as responsabilidades administrativas da companhia e, co-mo autor, escrevendo suas peças.


Em 1658 "o Contemplador" obteve permissão para atuar com sua companhia diante do rei. Representavam urna peça de Racine, mas o espetáculo quase fracassa. É salvo à última hora pela vivacidade de Molière, que improvisa um discurso diplomático e introduz uma farsa, toda gesticulada, bem à maneira da Commedia dell'Arte.


O artificio valeu : a antiga companhia Ilustre Teatro conseguiu de Luis IV o direito de encenar no teatro do Petir Bourbon na capital.


Leia também:


O autor excomungado


Retornando à capital, o antigo Ilustre atro deparou com a sociedade parisiense no auge d.o artificialismo. Era o reino do esnobismo intelectual. As damas da corte, para "elevar a vida social", recebiam filósofos em seus sabões e incentivavam as conversas maneirosas e os 'preciosismos. Era assim que, em vez de água, dizia-se, por exemplo, "elemento químico" e, em lugar de espelho, "conselheiro das beldades". "Pescarei no lago da memória com o fio dos meus pensamentos", é a fala que Molière usa para dizer apenas: "Vou pensar", na sátira a esse rebuscamento, que encena em 1659: As Preciosas Ridículas.


Aquele século XVII marcava o triunfo do Classicismo e, especialmente na França, do Teatro Clássico. As célebres tragédias em versos de Racine e Corneille restringiam-se absolutamente às leis das três unidades: de ação, espaço e tempo. Urna ação homogênea se desenrolava num mesmo ambiente, em um período de vinte e quatro horas. Era o tempo em que uma rima valia mais do que urna boa ideia; do sacrifício trágico em nome da honra, que levava ao êxtase autores e público.


E Molière ousou apresentar uma farsa, com elementos prosaicos, onde rostos enfarinhados e máscaras coloridas caricaturavam personalidades importantes e expunham-nas ao ridículo. As Preciosas Ridículas foi seu primeiro grande sucesso, e também o inicio dos grandes combates pela liberdade de criação. Os autores clássicos não lhe perdoavam, as companhias rivais duvidavam de seu talento, muitos religiosos execravam-no e as damas da corte, feridas por suas criticas, "excomungavam-no".


Molière inaugura em 1661 a nova sala do Palais Royal, e demonstra que, muito mais que sagaz contemplador, é contemplador atuante: produz febrilmente. Dirige, escreve, interpreta.


"Não se deve julgar uma obra segundo as leis, mas segundo o efeito que ela produz sobre nós"  é a sua tese. Para defende-la, leva à cena comédias de conteúdo social que, além de inimizades, conquistam também aplausos calorosos: Escola de Maridos, Os Importunos.


Nessa fase de sucesso, precisamente em janeiro de 1662, casa-se com Armancle Béjart, vinte anos mais moça do que ele, irmã de sua velha amiga e companheira Madeleine. O casamento logo lhe traz motivos de preocupação e ciúmes.


Em dezembro do mesmo ano, Molière encena a Escola de Mulheres. Aborda problemas morais, retrata virtudes e defeitos humanos. Novo rebuliço: a comédia pregava a glória do amor e da natureza, num momento em que os valores supremos eram a hona, os conceitos estabelecidos, as convivências. Apesar de tudo, a peça foi um sucesso.


Vitorioso, recebe do rei urna pensão e é declarado "excelente poeta cômico". Enfrenta a inimizade dos rivais, que agora incitam os devotos contra o paganismo de Escola de Mulheres; mas consegue demonstrar que uma boa comédia pode valer mais que urna tragédia em belos versos.


Leia também:


Os espectadores excomungados


Apoiado por Luis XIV, que se divertia enormemente com suas sátiras, Molière torna-se em 1664 provedor dos divertimentos reais. Entre as encenações mistas de música, balé e teatro, escreve O Tartufo, a comédia que suscitou maiores controvérsias.


O personagem Tartufo é um falso devoto que, usando a religião, introduz-se numa família honesta e deixa casualmente perce-ber seus propósitos depravados. Muitos religiosos, presentes à primeira representação de O Tartufo em 12 de maio do mesmo ano, sentiam-se retratados como hipócritas. A reação da Igreja foi rápida: conseguiu proibir a representação da peça.


Molière encena ainda Don Juan, e O Misantropo, mas não desiste de O Tartufo. Remodela a peça e leva-a a público, sob o nome de Panulfo. A peça é imediatamente proibida e o arcebispo de Paris excomunga os espectadores. Molière fica doente e o Palais Royal é fechado.


Mas o teatro é mais forte dentro dele, e reinicia, produzindo urna série de "divertimentos", bem a gosto do rei, e urna série de comédias e tragédias: Psiché, O Burguês Fidalgo, Os Magníficos Amantes, A Condessa de Escarbagnas, As Artimanhas de Escapino. Com a comédia As Mulheres Sábias, o incansável artista retorna ao teatro de conteúdo social; e ao sucesso.


Mas o final de sua vida é difícil. Perde seu filho e,logo em seguida, a cunhada. Luís XIV parece agora preferir Lully, a quem passa o encargo dos divertimentos reais. E, além do mais, a doença consome o velho ator. A 10 de fevereiro de 1673, Molière morre corno homem que viveu em função de sua arte: sofre um ataque em pleno palrara co, quando representava O Doente Imaginário.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Homero: o poeta das epopéias

Teoria da aprendizagem

História e arte de Johann Sebastian Bach