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Goethe, Contra a Tempestade

Mais de oitenta anos viveu Goethe, dedicado às belas-letras, ao teatro, à investigação científica, ao amor.


Fonte da imagem: stringfixer/Goethe em 1828, por Joseph Karl Stieler


Sua obra literária influenciou dois grandes movimentos estéticos, em sua terra natal e em muitos países da Europa. Seu livro, Werther, serviu de modelo para o Romantismo francês e para os países que acompanharam a moda ditada pela França. Sua obra clássica, Fausto, norteou os princípios da literatura alemã e inspirou poetas, pintores, compositores, até cineastas, ainda muitos anos depois de escrita. Goethe conheceu a fama e o prestigio, recebeu aplausos da critica e das altas personalidades de seu tempo. Toda a sua obra foi consagrada a incutir em seus leitores o otimismo, a crença de que os esforços humanos têm significado, a fé no homem, a esperança. Tudo isso dentro de uma forma correta, equilibrada, moldada, sobretudo, segundo os princípios do classicismo. Goethe ocupa, hoje, um lugar de honra dentro da literatura em língua alemã, e não pode ser ignorado por quem quer que se interesse pela literatura em qualquer parte do mundo.


O relógio da igreja matriz de Frankfurt soava as doze badaladas do meio-dia, aos 28 de agosto de 1749, quando veio à luz Johann Wolfgang von Goethe, filho de Johann Kaspar e Elisabeth Textor Goethe. Não foi um menino prodígio. Começou a escrever —versos líricos e dramas em alexandrinos, por volta dos quinze anos. Se não foi precoce na arte, foi no amor. Nos mesmos quinze anos, conheceu a primeira mulher de sua vida: Gretchen, que mais tarde mencionou em sua autobiografia Poe-sia e Verdade (publicado de 1811 a 1833). Mas o pai preferia vê-lo estudando, ao invés de fazendo versos ou namorando. Queria vê-lo laureado em leis, e com esse propósito enviou-o a Leipzig (1765-1768).


Mas o pai preferia vê-lo estudando, ao invés de fazendo versos ou namorando. Queria vê-lo laureado em leis, e com esse propósito enviou-o a Leipzig (1765-1768). Após três anos passados lá, em estudos c muitas noitadas, o jovem Goethe retornou ao lar, gravemente enfermo. Quase um ano permaneceu no leito. Convalescente, lia Shakespeare e escrevia uma comédia. Os Cúmplices (publicada em 1870). E seu pai aborrecia-se. Desejava que ele conseguisse logo o diploma de advogado. Não quis mais esperar: mandou-o novamente à escola, desta vez a Strasburgo (1.770-1771).


Mas o jovem Goethe, em vez de aplicar-se em leis, preferia passar a maior parte do tempo na Escola de Medi-cina, estudando Química, ou então conversando com seu novo amigo, companheiro de hospedaria, Johann Gottfried von Herder (1744-1803), já um filósofo afamado.


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Herder foi um dos principais inspiradores do Sturm und Drang (Tempestade e Impeto), o movimento pré-romântico alemão. Seus interesses estavam voltados para a es-tética, história e filosofia. Sua inspiração radicava-se no passado nacional, na arquite-tura gótica, no folclore medieval alemão. Sua revolta era contra a submissão dos escritores de seu tempo a leis estéticas preconizadas por Aristóteles, certamente muito válidas na antiguidade, mas não no século XVIII. Sua luta era contra o absolutismo, contra o racionalismo, contra as convenções sociais. Herder, porém, não concebera sozinho esse pro-grama. Ele já vinha sendo anunciado, em parte, pelos filósofos do Ilurninismo francês: Diderot, Montesquieu, Voltaire e, sobretudo, Jeanlacques Rousseau.


Característico de Rousseau e do Sturm und Drang é o tema da incompatibilidade entre o indivíduo e a sociedade, o conflito entre o homem natural e as leis da civilização. Esse conflito é retratado na primeira grande peça do movimento: Goetz von Berma lichingen (1773) de Goethe.


Goetz é um cavaleiro medieval, ladrão e líder de camponeses revoltosos. Transformado por Goethe em herói, ele enfrenta a sociedade e acaba sucumbindo por ser grande demais para um mundo demasiado pequeno. Com Goetz, o autor se tornou, da noite para o dia, famoso em toda a Alemanha.


Uma onda suicida Famoso e consagrado, no entanto, Goethe publicou, anonimamente, uma novela que fez furor na Europa: Os Sofrimentos do Jovem Werther, ou simplesmente Werther (1774). A obra popularizou-se rápido, não só na Alemanha, mas também na França, onde, sob sua influência, anos mais tarde Chateaubriand escreve o livro que marca o início do romantismo francês: René (1802) .


O drama do jovem Werther, apaixona-do pela noiva de seu melhor amigo, achou que não havia solução para ele senão a morte, comoveu a Europa. Os jovens vestiam-se como Werther, falavam como Werther, e muitos também se suicidaram como Werther.


O próprio Goethe viveu um pouco do drama de seu personagem. Como ele, apaixonou-se por urna mulher comprometida, Charlotte Buff, noiva de um certo Kestner. Mas, ao invés de matar-se como Werther, julgou mais sensato escrever. E redigiu, além de urna série de sátiras e canções, o primeiro esboço de sua obra máxima, o Fausto (1774). Envolvido, nessa mesma época, com Lili Schiinemann, filha de um rico banqueiro de Frankfurt, Goethe resolveu fugir, ante a perspectiva de um casamento próximo com a jovem. Por isso, aceitou de bom grado o convite do Duque Carlos Augusto, para passar uns tempos no Ducado de Weimar L1775), onde exerceu cargos políticos.


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Poucos meses estava Goethe em Weimar, quando conheceu Charlotte von Stein, a mulher que dominou seus primeiros dez anos no pequeno ducado, e que o ajudou a amadurecer. Como no caso da outra Char-lane, esta também era comprometida, e em grau muito maior: era casada. Contudo, seu marido vivia viajando, e assim o romance entre os dois transcorreu, de certo modo, tranquilamente.


A maior parte do tempo, Goethe passava com ela, em sua residência, o Castelo Gross Kochberg. Aí começou a elaborar sua novela Wilhelm Meister, publicada mais de cinquenta anos depois, em 1829. E concluiu, em seis semanas, a peça em prosa Ifigênia em Táurida (1779).


Ao elaborar a personagem central da peça, pensava certamente em Corona Schr6ter, atriz, cantora, compositora, desenhista e poliglota. E pediu ao duque que a chamasse para representar Ifigênia no teatro de Weimd mar. Apesar da presença constante de Char-lotte von Stèin, uma aventura floresceu entre Goethe e Corona. Urna aventura passageira. Após a apresentação da peça, em Ettersberg, onde Goethe representou o papel de Oreste, a jovem atriz desapareceu para sempre de sua vida.


Pouco depois, Charlotte também foi preterida. Goethe sentia-se cansado. Sua função de conselheiro do ducado, seu trabalho de escritor, seu caso com Charlotte, tudo isso exauria-o. E mais uma vez ele fugiu para Itália, levando no passaporte o nome de Jean Phillipe Müller, pintor de profissão.


Foram dois anos felizes e tranquilos (1786-1788). Sobretudo em Roma, Goethe estudou, conheceu a antiguidade clássica, a arte medieval. Nela encontrou beleza, o equilíbrio, a serenidade, que mais tarde se tornaram o ideal de sua própria arte. Face aos monumentos da antiguidade, esboçou o Fausto e o Torquato Tasso, e rescreveu, em versos, Ifigênia em Táurida. Era o início do classicismo alemão, que alcançou o apogeu entre 1794 e 1805.


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A torre de marfim


De regresso a Weimar (1788),descurou um pouco de seus afazeres de homem de Estado, para dedicar-se mais a literatura e à investigação científica. Conheceu então a jovem Christiime Vulpius, moça modesta e sem instrução que ele recolheu em sua casa como governanta e a quem tornou sua companheira, escandalizando toda a sociedade weimariana. Somente em 1806 é que o poeta legalizou sua situação.


Em 1794, iniciou com Schiller uma amizade que seria preciosa para sua obra. Ao nascer-lhe o primeiro filho (1789), a França se agitava nas primeiras convulsões revolucionárias. Para Goethe, pareciam belos os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, mas apenas como ideais. Encerrado em sua torre de marfim, abastado e bem. instalado, Goethe se horrorizava com a violência. Como os intelectuais seus com-patriotas, ele continuou seu trabalho, indi-ferente à sorte da França. Investigava problemas de óptica, redigia seu poema épico Herman e Dorotéia, concluía a primeira parte do Fausto e dirigia o teatro da corte de Weimar (1791-1813).


Deixara de ser o jovem romântico. Trans-formara-se no mestre do classicismo alemão.


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As normas da escola


O classicismo na Alemanha representa urna fase de cerca de vinte anos, compreendida entre o pré-romantismo e o romantismo. O movimento procurava disciplinar os impulsos do Sturrn und Drang.


Famosa é a afirmação de Goethe, que bem expressa o seu particular modo de sentir: "Chamo clássico tudo que é sadio, e romântico o que é doentio . A maior parte das obras novas não são românticas por serem novas, mas por serem fracas, malsãs, mórbidas. E as obras antigas não são clássicas por serem antigas, mas por serem vigorosas, alegres, sadias".


Ao invés de se revoltarem contra a civilização; os clássicos encaravam-na como um meio de desenvolver todas as potencialidades humanas. O homem do classicismo desejava não combater a sociedade, ma conciliar-se com ela. Seu ideal estético era a sobriedade, a serena grandeza que se revelam nas artes ada antiga Grécia.


Ao lado destas qualidades, a literatura clássica devia ainda assumir uma dimensão universal. A ideia for formulada, a primeira vez, por Goethe. Queria ele uma Waltliteratur, literatura universal. Com isso, significava uma literatura que ultrapassasse os problemas nacionais e pessoais para tratar de coisas universais, compreensíveis par aos cidadãos de todos os países.


No teatro, Goetheaa preconizava a interpretação afastada, não-realista : o público nunca devia esquecer-se de que estava no teatro, assistindo a uma representação e não a cenas da vida real. Os versos, pois as peças eram escritas em versos ~mi deviam ser declamados, com ritmo, acentuando as sílabas tô-nicas, e não de maneira natural, imitando a linguagem cotidiana. Os atores não podiam dar as costas aos espectadores, nem ficar de perfil, nem gesticular a esmo, nem se sentar, nem assoar o nariz, nem cuspir no chão.


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A busca da perfeição


Mas a grande realização de Goethe, den-tro do classicismo alemão, não é a formulação de conceitos, não é a elaboração de normas de conduta para os atores, e sim a obra-prima da literatura de sua pátria: o Fausto, cuja primeira parte ele publicou em "1808.


Goethe modificou profundamente o teor das lendas que envolvem a figura do Dr. Fausto, mago, astrólogo e quiromante de inícios do século XVI. Segundo a tradição, Fausto negociara sua alma com o demônio, em troca de prazeres e poderes terrenos. Na obra de Goethe, Fausto faz uma aposta com Mefisto, o demônio: este poderá arrebatar sua alma quando Fausto encontrar a plenitude sobre a Terra. Nessa busca, ele envereda pelos caminhos da perdição.


Quando Fausto conta já cem anos, e é dono de vastas propriedades, arrepende-se de seus pecados e decide desbravar suas terras, para nelas dar morada segura e digna a todos os homens. Sente-se então realizado, sente que encontrou a plenitude, justamente por poder fazer o bem. No momento, porém, em que Mefisto, ganhador da aposta, vai arrebatar a alma de Fausto, como fora combinado, uma legião de anjos intervém e conduz Fausto para os céus. Arrependido e redimido, o .pecador alcança a salvação. Porque é da essência do homem o eterno impulso para ir além de si mesmo. Nesse sentido, o Fausto simboliza o anseio humano de transcender seus limites físicos e espirituais, e procurar uma resposta para seus problemas. E é também o símbolo dos abismos a que o homem se e nessa busca.


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A morte solitária


Fausto era a consagração definitiva do mestre clássico. Com 59 anos de idade, Goethe era um escritor realizado, um chefe de escola respeitado. Mas ainda quis fazer mais, e escrever os versos de Divã Ocidental. Oriental (1819), inspirados por Marianne von Willemer. Concluiu seu romance Wilhelm Meister (1829).


Recordou a jovem Ulrike von Levetzow na Elegia de Marien-bad (1823). E terminou a segunda parte do Fausto, publicada no ano de sua morte (1832). Mas, se de um lado era escritor realizado, de outro sofria cada vez mais as perdas que a vida lhe impunha: primeiro, seu amigo Schiller, morto em 1805; depois, sua esposa (1816); doze anos mais tarde, o Duque de Weimar (1828); e por fim, decerto a morte mais dolorosa, seu filho Augusto (1830). Rico e famoso, mas solitário e infeliz, Goethe também acompanhou seus mortos queridos, fechando para sempre os olhos, em sua cidade de Weimar, onde trabalhara e vivera quase cinqüenta anos de sua vida.

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