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Nicolau Maquiavel: homem do presente, profeta do futuro

Um homem que estava muito além de seu tempo, Nicolau Maquiavel era sem dúvida um gênio da literatura e da história da sua época.


Nicolau Maquiavel. Fonte da Imagem: Wikipedia

Itália. Fins do século XV, início do século XVI. o Reino de Nápoles ao sul, o Ducado de Milão a noroeste, a República aristocrática de Veneza a nordeste e, no centro, a República de Florença e o Estado papal. Cinco Estados que tentavam por todos os meios debilitar-se mutuamente e temiam submeter-se uns aos outros. Cidades voltadas para o comércio do Mediterrâneo e rivais na disputa do mercado externo. Cidades ricas e cultas, ativas e prósperas, mas desunidas, enfraquecidas militarmente, aber-tas a interferência estrangeira. O resto da Europa iniciava-se o ,processo de formação dos grandes Estados nacionais.


A concepção medieval de um império europeu cristão, dirigido na parte temporal pelo imperador e na espiritual pelo papa, embora não desaparecesse, deixou de ter força. Já em 1383 Portugal enveredava, com a Revolução de Avis, pelos caminhos da monarquia nacional, que contribuiria para a posterior expansão colonial portuguesa. a Es-panha, em 1469, com o casamento de Fernando e Isabel, uniram-se os reinos de Aragão e Castela, prenunciando a monarquia absoluta que permitiria ao país tornar-se urna potência comercial no correr do século seguinte. Na França, Carlos VIII (1483-1498) iniciou um processo de centralização do poder, fortalecendo o Governo real às ex-pensas dos grandes senhores feudais. Na Inglaterra, Henrique VII (1485-1509), inicia-dor da dinastia dos Tudor, deu o primeiro passo para um período de absolutismo. O século XVI despontava sob o signo da formação das grandes nações, voltadas para urna política consciente de exploração dos recursos internos, de encorajamento do co-mércio exterior, de desenvolvimento do poder central.


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A Itália dividida 


As cidades italianas continuavam desuni-das. Contribuiu para isso o peso de seu passado. Com o esfacelamento do Império Romano, a Europa voltara-se para uma economia de subsistência. O comércio regredira a níveis muito baixos. As cidades desapareceram. A vida deslocou-se para os campos; passou a ter seu centro no feudo, autossuficiente e isolado do mundo exterior. A esse destino escaparam apenas algumas cidades italianas do litoral adriático, entre elas Veneza. Incorporada ao Império Bizantino, "manteve-se ativa, graças ao comércio marítimo com Constantinopla e, através dela, .com o Oriente. Como o comércio tomasse novo impulso a partir do século XIII, novas cidades surgiram: Nápoles, Florença, Milão. Navios italianos cruzavam o Mediterrâneo. Florescia a indústria. Criavam-se bancos.


A prosperidade trouxe o progresso da literatura e das belas artes. Os grandes burgueses mercadores tornaram-se patronos de arquitetos, tores, escultores, músicos e poetas, que Criaram a cultura do Renascimento. A prosperidade só não trouxe a paz e a união. Rivais no comércio, as ricas cidades viviam em guerras constantes. Minada pelas lutas intestinas, a península devia suportar ainda a cobiça estrangeira; a Alemanha, a França e a Espanha disputando entre si o rico despojo. Para isso tinham o caminho aberto. Nas guerras internas, as potências estrangeiras eram freqüentemente chamadas para dar apoio a uma das partes. Foi assim, por exemplo, que, ambicionando o Estado da Lombardia, Veneza recorreu ao rei francês Luís XIII. Mas, mesmo que qui-sessem, as cidades italianas não poderiam repelir os invasores. Nenhuma delas tinha um exército permanente. Suas tropas com-batentes eram formadas por mercenários. Lu-tando por dinheiro, era comum que se bandeassem de lado, sempre que a recompensa fosse interessante. E como não lutassem por uma causa, os mercenários poupavam-se ao máximo. Verdadeiras encenações teatrais, as operações militares eram longas e indecisas; grandes exércitos lutavam durante dias inteiros sem que se per-desse uma só vida. Assim, as disputas se arrastavam e nenhum poder era suficientemente forte para se impor e unificar toda a península. Houve quem deplorasse o estado de coisas e defendesse ardorosamente a unificação da Itália: Nicolau Maquiavel (1469-1527), escritor e político florentino.


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A experiência vivida


Interessado nos problemas de seu tempo, Maquiavel participou ativamente da política de Florença. Com 29 anos, tornou-se secretário da segunda Chancelaria, uma espécie de ministério da República de Florença durante o Governo de Piero Soderini (1498-1512). Tinha a seu cargo questões militares e de ordem interna. Realizou várias missões diplomáticas de importância, envolvendo a França, Alemanha, os Esta-dos papais e diversas cidades italianas como 'Milão, Pisa e Veneza. Em 1512, a família dos Mediei recupera o poder perdido em 1494, quando se constituíra a república florentina. Destituído de seu cargo, Maquiavel recolhe-se ao exílio voluntário. Em 1526, ensaia uma volta: é encarregado pelo Papa Clemente VII de inspecionar as fortificações de Florença e organizar um exército permanente para sua cidade, sob o comando de Giovanni Dane Bando Nere. A empresa malogra, e Maquiavel retira-se da vida pública.


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A vida passada a limpo


Abandonando a ação, não se desinteressou da política. Ela esteve sempre no centro de suas preocupações, refletida numa obra muito vasta. Numa propriedade próxima a San Casciano, no campo, inicia sua atividade de escritor político, historiador e literato. Em 1513, começa a trabalhar nos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, uma análise da República romana, onde procura, nas experiências do passado, uma solução para os problemas da Itália contemporânea.


Da sua correspondência com o amigo Vettori, nasce a ideia de um novo livro. Inter-rompe a feitura dos Discursos, para escrever sua obra maior: O Príncipe (1513), dedicada a Lourenço de Mediei, antigo governante de Florença. Nela estão contidos os conhecimentos adquiridos e a experiência vivida. Disseca a formação e a conservação dos principados, o papel do governante supremo, o príncipe, sua capacidade de manter-se no poder por recursos políticos ou pelã. força.


Em 1516, Maquiavel escreveu o Diário em Torno de Nossa Língua, procurando demonstrar a superioridade do dialeto florentino sobre os demais dialetos da Itália. Seguiram-se sete volumes da Arte da Guerra (1520), em forma de diálogo, onde expõe as vantagens das milícias nacionais sobre as tropas mercenárias e realiza um exaustivo estudo de estratégia e tática militar. Mas não parou ai. O analista político se transforma em dramaturgo para criticar a sociedade e os costumes de seu tempo, em duas comédias: A Mandrágora (1518) e Clizia (1525), baseada em Casina de Plauto, autor romano do século III a.C. Depois de "Clizia", Maquiavel tentou a novela, escrevendo "Belphagor", uma sátira ao casamento.


Em 1527, Maquiavel morre deixando in-completa a História de Florença, iniciada em 1520. Obra de folego, deveria abranger desde a queda do Império Romano até a morte de Lourenço. de Mediei.


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A ciência da política


Maquiavelismo, na linguagem comum, é sinônimo de astúcia, perfídia, e maquiavélico é o indivíduo que não escolhe os meios para atingir os seus propósitos. Injusta homenagem ao escritor florentino, que nada mais fez do que sistematizar a experiência da formação dos grandes estados nacionais modernos e a atuação concreta dos governantes que os criaram.


Todo seu trabalho visava a Itália. A as-piração do povo italiano, segundo ele, era a unificação política, a criação de uma nação moderna poderosa. V, o importante era rea-lizar o desejado projeto, sob qualquer forma de Governo — monarquia ou república, e por quaisquer meios, inclusive a violência. Maquiavel considerava os fatores morais, religiosos e econômicos que operavam na sociedade como forças que um governante hábil poderia e deveria utilizar para construir um estado nacional forte. Legítimo seria o Governo que realizasse a aspiração do povo. Assim, o príncipe deveria ser capaz de es-tender seu domínio sobre todas as cidades italianas, acabando de vez com a discórdia. Tal empresa só poderia ser levada a cabo com um exército nacional, sob o comando supremo do príncipe, que substituísse as precárias forças mercenárias.


Maquiavel morreu sem ver seu sonho rea-lizado: a unificação da Itália só se completaria no século XIX. Sua obra não foi capaz de transformar a realidade italiana. As cidades continuaram em disputas e a península presa fácil das nações estrangeiras. Mas, ao estudar a atuação dos homens do passado e de sua época e propor formas racionais de ação, mudou a política em ciência.


"E como disse ter sido preciso, para que fosse conhecida a virtude- de Moisés, que o povo de Israel fosse escravo no Egito; para conhecer-se a grandeza de alma de Ciro, que estivessem os persas oprimidos pelos medos e para conhecer-se o valor de Teseu, que os atenienses estivessem dispersos, assim, modernamente, desejando-se conhecer o valor de uni príncipe italiano, seria preciso que a Itália chegasse ao ponto em que hoje se encontra. Que estives-se mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida do que os persas-, mais dispersa que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, lacerada, invadida, e que houvesse, por fim, sofrido toda espécie de calamidades..:"


"Deste modo, tendo ficado como sem vida, aguarda a Itália aquele que lhe possa curar as feridas e dê fim ao saque da Lomba•dia, aos tributos do reino de Nápoles e da Toscam, e que cure as sitas chagas já há muito apodreci-das. Percebe-se que ela pede a Deus que lhe mande alguém que a redima de tais crueldades e insolências de estrangeiros. vê-se) mesmo, que se acha pronta e disposta a seguir uma bandeira, desde que exista quem a levante." (O Príncipe, 1513).


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