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Instinto e Aprendizagem

O estudo do comportamento animal é muito interessante, então vem comigo nessa história do Instinto e Aprendizagem que você via gostar.


Konrad Lorenz. Fonte da imagem: amenteemaravilhosa.com.br


Quem já observou uma galinha rodeada de pintinhos sabe que eles a acompanham e compartilham os alimentos que ela encontra. A galinha, por sua vez, não só aceita a companhia dos pintinhos como também os atrai para locais onde há comida e dá atenção a seus piados, procurando os filhotes que se extraviam. Esse tipo de "relacionamento familiar" que ocorre entre galinhas engloba o que se costuma chamar de instinto materno e instinto filial. É comum observarmos esse com-portamento em diversos animais, desde aves, como galinhas, patos, perus e pombos, até mamíferos, como gatos, cães e macacos. Mas esse comportamento seria totalmente instintivo, isto é, inato? Ou dependeria, pelo menos em parte, de aprendizagem? Qual o "mecanismo" desse comportamento? O que faz com que os filhotes reconheçam a mãe e se apeguem a eia, logo depois de nascidos? E, à medida que eles crescem, o que os faz apegar-se aos membros de sua própria espécie, para constituir bandos ou simples-mente para reproduzir-se e cuidar dos filhotes? As perguntas podem ir ainda mais longe: o mecanismo de aprendizagem do ser humano teria pontos em comum com o dos animais? Que relações teria o comportamento humano com o comportamento animal? Ainda estamos longe de ter respostas definitivas para todas essas questões. Mas uma teoria surgida quase na metade deste século veio revolucionar a psicologia do com-portamento animal, trazendo um novo enfoque para muitas questões a respeito dos mecanismos do instinto e da aprendizagem. Trata-se da teoria da estampagem, formulada pelo zoólogo austríaco Konrad Lorenz, em 1937.


Interessado no comportamento animal, Konrad Lorenz dedicou-se a analisar um fato que já havia sido observado por vários estudiosos anteriores: os pássaros jovens não reconhecem instintivamente os membros adultos de sua espécie. Logo que nascem, muitos pássaros seguem a primeira coisa em movimento que encontram que pode ser sua mãe, um outro membro da espécie, ou um membro de outra espécie. E instintiva-mente se apegam a esse indivíduo que seguiram pela primeira vez, sem que dele tenham recebido um prêmio (comida, por exemplo) que os condicionasse a acompanhá-lo.


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Teoria da estampagem


Fazendo experiências em urna granja, Lorenz separou em dois grupos os ovos postos por uma gansa. Um grupo foi chocado pela gansa e o outro foi colocado numa incubadora. Os filhotes chocados pela mãe, ao saírem dos ovos, seguiram-na por toda a granja. Os filhotes chocados na incubadora, contudo, seguiram Lorenz, por ter sido ele a primeira coisa móvel que viram.


Em seguida, Lorenz marcou os filhotes de um dos grupos, para distingui-los, e colocou todos os filhotes, durante certo tempo, dentro de urna grande caixa. Ao saírem da caixa, os dois grupos de filhotes correram imediata-mente para seus respectivos "pais": a gansa e Lorenz. A esse processo no qual uma experiência no começo da vida determina um comportamento social futuro Lorenz chamou de estampagem, afirmando que um animal jovem fica estampado pela primeira coisa em movimento que vê em sua vida. Analisando esse fenômeno, Lorenz chegou conclusão que a estampagem é determinada instintivamente e faz com que o animal reconheça e se apegue a urna coisa pela simples exposição a ela, nos primeiros momentos de vida.


As experiências precoces dos animais têm grande influência sobre seu comportamento na idade adulta. Determinar como elas exercem influência é a preocupação maior dos estudiosos do assunto. Geralmente, os estudos de estampagem são feitos em aves, mas podem ser realizados também com outros animais, como insetos, peixes e alguns mamíferos (carneiros, cabras, cervos, búfalos, etc.). Nos mamíferos, esse fenômeno aparece com mais freqüência em animais Cujos filhotes são capazes de mover-se imediata-mente após o nascimento.


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Uma bola, uma caixa, um homem


Quando se trata de aves, as observações de estampagem em laboratório geralmente se iniciam com o recolhimento dos ovos dos ninhos, que são levados para as incubadoras. o saírem dos ovos, os filhotes são mantidos no escuro, para que não tenham experiências visuais até o momento da estampagem, quando são postos frente a um objeto deter-minado. As respostas a esse estímulo são de-pois verificadas, no teste de estampagem: o filhote é colocado numa situação em que pode escolher entre dois ou mais objetos; um, desses objetos é o objeto original da estampagem. Se o animal segue esse objeto, dizemos que foi estampado por ele.


Durante experiências de estampagem verificou-se que a ocorrência do fenômeno limita-se a um período crítico. Terminado esse período, nenhum objeto, nem mesmo a mãe, é capaz de produzir estampagem. Esse período varia muito, de espécie para espécie. Em certos pintinhos, a estampagem ocorre num período intermediário entre algumas horas e alguns dias após O nascimento. Em patinhos, as respostas positivas ocorrem quando a experiência de estampa-em se realiza entre 13 e 16 horas depois que saíram do ovo.


Muitos objetos podem provocar estampagem. Os gansos, por exemplo, são estampa-dos por qualquer objeto (urna bola, urna caixa, um homem), desde que ele seja móvel. Para outras espécies, a característica mais importante é o som emitido pelo objeto da estampagem. Outro fator que afeta a estampagem é a presença de estímulos simultâneos — um filhote sozinho sofre mais facilmente estampagem de um determinado objeto do que quando está acompanhado de outros filhotes, que desviam sua atenção.


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Pássaros "apaixonados"


Para Lorenz, a estampagem deve ser considerada como um processo particular do aprendizado, um "aprendizado por exposição". Urna das razões que o levaram a essa conclusão é que o fenômeno parece ter efeitos duradouros, determinando, aparentemente, não só as respostas filiais, mas também as respostas sexuais. O comportamento sexual só ocorre numa fase posterior ao período de estampagem, depois que o animal já está crescido e assumiu diversos outros comportamentos. Mas pode relacionar-se com a estampagem. Assim, as experiências de estampagem seriam ocasiões de aprendizado, nas quais o animal reconheceria pela primeira vez o membro de sua espécie e o identificaria como companheiro sexual.


Um pássaro estampado pelo pesquisador cortejava pessoas depois de adulto. Ao ser-lhe oferecida urna fêmea de sua espécie, o pássaro a princípio recusou-a. Porém, depois de deixado a sós com eia, acabou por aceitá-la, e produziu com eia várias ninhadas. Mesmo assim, quando o pesquisador aparecia, o macho logo expulsava a fêmea do ninho e, voltando-se para ele, executava movimentos, convidando-o a sentar-se no ninho e incubar os ovos.


Da mesma forma, pássaros estampados com aves de outra espécie procuram-nas na ocasião do acasalamento. Isso levou os pesquisadores a concluir que a estampagem poderia determinar as respostas sexuais, em-bora nem todas as experiências nesse sentido tenham produzido resultados como o do pássaro que se "apaixona" por seres humanos ou por aves de outra espécie. De qualquer forma, a estampagem parece ser um processo que marca o animal de forma indelével, dificultando ou impedindo que experiências posteriores, com outros objetos, superem a preferência pelo objeto original.


Essas conclusões não podem, contudo, ser consideradas definitivas. É necessário ainda que se realizem mais estudos de acompanhamento da vida de animais que tenham sido submetidos a experiências de estampagem. Sabe-se que, além desse "aprendizado" instantâneo, o animal aprende também a rea-gir ao meio ambiente de acordo com outros estímulos. A presença de estímulos agradá-veis (comida, por exemplo) ou desagradá-veis condiciona o comportamento do animal, podendo alterar reações devidas à estampagem. Além disso, a estampagem varia de espécie para espécie, havendo animais em que ela não é tão facilmente observável como nas aves. E há animais que só serão estampados se o objeto apresentar determinadas características bastante precisas: certas frequências de som, por exemplo, são capazes de estampar gafanhotos, fazendo-os emitir som parecido; algumas espécies de macacos, por sua vez, sofrem estampagem somente quando o objeto apresentado for macio ou peludo e fácil de ser abraçado.


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Estampagem e evolução


É muito útil, para os animais que apre-sentam estampagem, a resposta de seguir o primeiro objeto móvel que aparece, pois esse objeto, sendo quase sempre a mãe, garante aos filhotes proteção e alimento. A estampagem parece ser, portanto, fruto da seleção natural, que no decorrer da evolução propiciou a algumas espécies esse excelente recurso adaptativo.


Estampagem no ser humano


Alguns cientistas vêm avaliando as possíveis semelhanças entre o comportamento animal adquirido ou influenciado por estampagem e o comportamento humano. Estão sendo estudadas, por exemplo, as ocasiões em que aparece a resposta do sorriso na criança e o comportamento de crianças inter-nadas em orfanatos. Com isso de-terminar como seria. a estampagem no ser humano e descobrir que aspectos do nosso comportamento seriam determinados por ela.


Seria um exagero, entretanto, supor que. o comportamento social dos organismos se-ria exclusivamente determinado por rápidas experiências que ocorrem durante as primeiras semanas ou meses: de vida. A maioria dos animais modificou seu comportamento mesmo ao atingir a idade adulta, através  de múltiplos..e variados condicionamentos.

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