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Liszt: a arte sem pátria

Na época mais cosmopolita da Europa, entre 1850 e 1880, quando em torno da aristocracia culta e internacional se reuniam as elites literárias e artísticas de todos os países, viveu Franz Liszt, cidadão do mundo.


Fonte da imagem: Wikipedia/Louis Held - Renate und Eberhard Renno (Hrsg.): Louis Held. Hofphotograph in Weimar – Reporter der Jahrhundertwende. VEB Fotokinoverlag, Leipzig 1985.


Embora fosse liberal, nunca chegou à paixão nacionalista de um Chopin. Viveu na Hungria, Áustria, França, Alemanha, Itália e Rússia, adaptando-se a todos esses países.


Improvisador  de extraordinária habilidade, aliou sólida cultura musical e gosto re-quintado, para fazer de si mesmo o maior pianista de sua época. E depois de reunir as qualidades de Paganini e Chopin como virtuose desejou ser grande também como compositor orquestral. Plenamente realizado, terminou seus dias como abade, doente e pobre, com um patrimônio restrito à mala de viagem, alguma roupa branca, lenços, uma batina de reserva e um breviário.


O compositor nasceu na vila de Raiding, na obscura Doborján, região da Hungria, a 22 de outubro de 1811. Seu pai, Adam Liszt, gozava de certa fama no local, pois era administrador das propriedades do Príncipe Nicolas Esterházy (1714-1790). Candidato napoleónico ao trono húngaro e famoso por sua fortuna e prodigalidade, o príncipe foi protetor de Joseph Haydn (1732-1809) e de Ludwig van Beethoven 0770-1827).


Adam Lisa também era de nobre tradição, mas sua fortuna era apenas uma forte inclinação musical. Tocava violino e cantava corno baixo no coro da igreja e só não se dedicou à carreira artística porque a pequena vila não comportava nenhum movi-mento social nem artístico.


Foi num ambiente assim, onde as conversas se limitavam ao gado e à lavoura, que nasceu Franz, em 1811. O menino cresceu e tornou-se rijo como os filhos dos demais camponeses, mas, desde cedo, revelou natureza sensível e extrema facilidade para as-similar as noções que o pai lhe transmitia.


Acreditando na precocidade do filho, Adam lançou-se à missão de ensinar-lhe música com real empenho. Com nove anos de idade, o menino Franz já alcançava grande êxito em Oldenburgo, em Eisenstadt e em Presburgo. Nesta última, o jornal co-mentara: "A extraordinária habilidade do artista e o desassombro com que enfrenta às mais difíceis páginas, mesmo nas execuções à. primeira vista, justificam a admiração geral e as maiores esperanças em seu futuro".


Foi com os olhos nesse futuro que Adam levou a esposa e o filho, já com dez anos, de mudança para Viena. Entendeu que era necessário oferecer ao menino a orientação de bons mestres, inexistentes nas vilas do interior. Na capital austríaca, o célebre professor Czerny, que foi aluno de Beethoven, ensina piano gratuitamente ao menino, enquanto Salieri, mestre de capela da corte, lhe ministra aulas de teoria musical.


Os primeiros resultados surgiram dois anos depois, com a primeira apresentação de Franz ao público vienense. O programa constava de músicas que tiravam o máximo efeito do virtuosismo do menino. Os jornais o acolheram como a um assombroso fenômeno e um deles chegou a encerrar o co-, mentário afirmando: "Um deus está entre nós". Durante muitos anos veiculou-se que Beethoven teria assistido a esse espetáculo e que, ao final, abraçara emocionado o menino. Mas isso foi desmentido quando da publicação do diário do famoso compositor alemão.


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Paris, a sede artística


Meses depois a família Liszt deixa Viena, e, após breve retorno à Hungria com concertos em Budapeste muda-se para a França, com recomendação para matricular Franz no Conservatório Nacional de Paris. Ê quando surge a primeira derrota: Cherubini, diretor do famoso estabelecimento, recusa o aluno por ser estrangeiro. A recusa, todavia, não abalou o ânimo do velho Liszt, que guardava como trunfo a expectativa do público parisiense em re-lação ao jovem virtuose despertada pelos comentários vindos do exterior. E assim, com treze anos, Franz dá seu primeiro concerto público no Teatro Louvois, recebendo unânime aclamação da imprensa. o pianista húngaro inicia, então, urna fase de excessivo trabalho, que o obrigaria a um período de descanso no litoral francês. Nessa temporada de cura, sofre um choque maior : em agosto de 1827 morre Adam Liszt.


O rapaz instala-se com sua mãe em Paris e passa a lecionar música, abandonando temporariamente os concertos. Cumpre-se então urna das profecias de seu pai.: "Teu coração é bom e inteligência não te falta. Mas receio a influência das mulheres sobre ti . ." Franz apaixona-se depressa por uma aluna, Carolina, filha do Conde Saint Cricq, e as aulas prolongam-se mais do que o normal. Isto fez com que seus préstimos de professor fossem logo dispensados. Ferido pelo afastamento da amada, melancólico e deprimido, recolhe-se ao isolamento. Raramente aparece em público e os jornais chegam a noticiar sua morte. Só a revolução de 1830, contra a monarquia de Carlós X, consegue tirar Liszt da apatia.


Participa ativamente de reuniões intelectuais e assim descobre o Romantismo, do qual todas as correntes francesa, inglesa, alemã e italiana passaram a influir nas suas composições futuras. Na mesma época estabelece forte amizade com Frédéric Chopin e fica conhecendo Niccolè Paganini, que era dotado de uma técnica desconhecida de todos os outros músicos. Os demoníacos virtuosismos de Pagamnini levaram Liszt a tentar, na execução da "Sinfonia Fantástica", de Berlioz, obter de um piano a riqueza e a força de um conjunto de cem executantes. Além da técnica, Liszt aprende de Paga-. nini a importância da atitude e do com-portamento em cena.


Com 22 anos conhece nova paixão: a Condessa Marie d'Agoult, com quem fixa residência na Suíça, onde permanece por quase seis anos. É quando deixa de lado a carreira pianística e dedica-se à composição: Álbum de um Viajante (em três volumes), Anos de Peregrinação, Estudos de Execução Transcendental, seis Consolações, Estudos de Concerto, três Noturnos (entre eles, o tão conhecido Sonho de Amor), etc.


Em seguida, Liszt parte para Veneza, onde fica sabendo que uma enchente do Danúbio espalhara a ruína pela Hungria. Consternado, doa a renda de três recitais aos compatriotas. Uma delegação oficial húngara convida-o a visitar Budapeste e ele aceita. Recebido como herói, foi alvo de homenagens nacionais e, do que ouviu da música do seu povo, extraiu material para compor as vinte Rapsódias Húngaras.


Com 31 anos, a convite da Imperatriz Alexandra Feodorovna, Líszt segue para a Rússia. Na corte de Weimar, na Prússia, viveu dez anos, exercendo a função de mes-tre de capela. Tais funções não o impediram de dar, nos quatro anos seguintes, sucessivos recitais na Turquia, Boémia, Polónia, Dinamarca, Espanha e Portugal. No Palácio de Altenburg, empolgado por urna paixão: a Princesa Elízabeth Carolyne ivaas novska, Liszt compõe sem parar e cria suas obras mais importantes : vários de seus doze Poemas Sinfónkos, a Sonata em Si Menor, a Fausto-Sinfonia e diversos Lieder. Em 1860 recorre a Roma, tentando anular o casamento da princesa, mas não é atendido. Quatro anos depois Carolyne enviuvava, mas Liszt já se dedicava à vida religiosa. Compondo e lecionando, viveu o suficiente para presenciar a consagração de Richard Wagner seu genro, a quem mui-to prestigiou. Com a morte de Wagner, em 1883, acentuou-se o sentimento de solidão, que o acompanhou até a morte, em 1886.


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