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Um pouco de Vivaldi

Em meio as notas musicais, um gênio padre e músico, chamado Vivaldi.

Fonte da imagem: Wikipedia/Francois Morellon de La Cave


Os corais dos orfanatos de Veneza eram, para Jeanjacques Rousseau, coros de anjos. Só vozes femininas, harmoniosas, suaves. Toda a capela se embelezava com os sons. Mas não se podiam ver as moças que cantavam, ocultas atrás de grades. Rousseau imaginava-as tão lindas quanto as vozes, deviam ser "anjos de beleza". Ao terminar uma cerimónia, o filósofo pediu que lhe apresentassem as cantoras. E elas, ao serem chamadas, sucederam-se num triste desfile: uma era coxa, outra era estrábica, e outra tinha o rosto deformado.

Nenhuma escapava a um grave defeito físico. Nem todos os admiradores do coral do Ospedale della Pietà tiveram a decepção de Rousseaus As cantoras, órfãs recolhidas naquela instituição, viviam reclusas. Só quem as via era o pessoal que traia balhava na casa. Entre esse pessoal, Antonio Lucio Vivaldi, professor de violino e de "viola all'inglese".

Com 25 anos de idade e cinco meses de sacerdócio, Vivaldi ingres-sara no Ospedale por recomendação dos nobres venezianos que mana-tinham a instituição (1703). Sua experiência musical vinha desde a infância. Um dos sete filhos de Giovanni Battista Vivaldi, violinista da Capela de São Marcos, em Veneza, Antonio Vivaldi começara a estudar violino com seu pai desde muito criança, e aos dez anos já sabia manejar o instrumento suficientemente bem para substituir o velho Giovanni na Capela.

Em 1693, jovem de quinze anos, o talentoso rapaz entrou para o convento, ordenando-se sacerdote em março de 1703. Ganhou então um apelido, motivado por sua vasta cabeleira ruiva : II Prete Rosso, padre vermelho.

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Sua arte musical


Ao ingressar no Ospedale, Vivaldi levava consigo, além do talento, o desejo de inovar as formas musicais. E uma das formas que veia modificar era o concerto. Essa modalidade, originada na Itália em meados do século XVII, era então chamada concerto grosso; consistia no diálogo musical entre a orquestra e o concertino (violinista da orquestra que ocupa o lugar imediato ao primeiro violino). Giuseppe Torelli (1650?-1708) fora um dos criadores do gênero. Arcangelo Corelli (1653-1713), um dos seus maiores compositores. E Vivaldi, grande inovador. O padre vermelho, famoso já por suas apresentações no Ospedale, transformou o concerto grosso em concerto para solista e orquestra, e modificou-lhe os movimentos. Antes de Vivaldi, um concerto constava de um primeiro movimento lento: o adagio, onde se definia o terna da obra. Vinha em seguida o andante, um pouco mais rápido que o anterior. E, por fim, o allegro. Havia, pois uma gradação: do lento para o médio e depois para o rápido. Vivaldi decidiu colocar dois movimentos rápidos, allegro, no começo e no fim. no meio, inseriu um movimento lento. Desse modo, deu maior vivacidade ao concerto, quebrando a monotonia de seus antecessores. De seus concertos, o mais popular talvez seja o conjunto de As Quatro Estações, para violino e orquestra. Através da música, Vivaldi descreve a primavera, o verão, o outono e o inverno. Explorando ao máximo as possibilidades dos instrumentos, sobretudo o violino, ele consegue, nessa obra, imitar perfeitamente o canto dos pássaros, a tempestade, o trote dos cavalos.

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A música do drama


"Para ter sucesso, um compositor moderno não deve saber nada de composição, exceto alguns princípios universais e práticos. Pouco saber ler, e muito menos escrever. Não ,entender latim, nem conhecer os recursos dos vários instrumentos a não ser do seu. Deve compor os versos de sua música segundo a moda do tempo, e não de acordo com seu sentimento pessoal. Se por acaso for professor de canto, deve ensinar as cantoras a pronunciarem mal, de modo que a música e a voz monopolizem a atenção, em detrimento da letra. Deve adular todas as virtuoses da Ópera, dizendo-lhes que o gênero só se mantém em pé graças às virtudes da cantora".

Não se sabe se Antonio Vivaldi seguiu os conselhos de Bennedetto Marcello, músico seu contemporâneo. Mas foi bem sucedido corno Compositor de óperas. Ao dedicar-se a esse gênero de drama musical, em 1713, Vivaldi encontrou a ópera já bem definida e aceita por numeroso público. Fazia bem um século que ela aparecera, na Itália, e só em Veneza já havia provocado a construção de dez teatros, que levavam em média sessenta espetáculos por ano.

Ao contrário do que fizera com o concerto, Vivaldi não teve a menor intenção de modificar a ópera. Procurou apenas apresentar partituras bonitas, cantoras consagradas, cenários luxuosos atendendo ao gosto do público. E não se limitou a compor: também atuou como regente, empresário e cenógrafo. Dentre suas muitas óperas, destacam-se Orlando Finto Pazzo (1714), Nerone Fatto Cesare (1715), Arsilda Regina di Ponto (1716), La Constanza Trionfante dell'Amore e dell'Odio (1716) e Montezutna (1733).

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A descoberta do autor


Nos primeiros anos do século XVIII, a fama de Vivaldi alastra-va-se não só pela Itália, mas também pela França, Países-Baixos, Estados Alemães e Inglaterra. Nos centros musicais mais atualizados, figuravam as últimas edições de suas mais recentes obras, executadas com êxito nos teatros e nos salões. Mas, em 1740, um ano antes de sua morte, o compositor desapareceu de Veneza, e seu nome caiu no esquecimento. Nunca mais se falou em Vivaldi. Sua música ficou esquecida, ignorada pelas gerações seguintes. Quase um século após sua morte, falou-se nele outra vez, mas falou-se apenas. Foi quando se reapresentou a Paixão Segundo São Mateus, de Bach (16854750), obra descoberta casualmente pelo compositor alemão Félix Mendelssohn. apresentação da obra de Bach, que também era um quase desconhecido no século XIX, levou os estudiosos à pesquisa de outros manuscritos do mestre alemão. E nessa pesquisa encontraram um fascículo, datado de 1739, em cujo cabeçalho leram: "XII Concerto de Vivaldi, elaborado por J. S. Bach". O nome de Vivaldi provocou alguma curiosidade, mas não foi além disso. Os pesquisadores acharam que Bach se havia inspirado em certas coletâneas de concertos do início do século XVII.

Mas, na continuidade das pesquisas sobre Bach, os estudiosos puseram em dúvida a autoria do Concerto em Ré Menor para Órgão. Achavam eles que a obra não era, corno se acreditava, do filho de Bach, Wilhelm Friedmann (1710-1784). Procuraram o manuscrito e acharam que de fato era de Bach a autoria, mas que o filho a havia atribuído a si mesmo. Alguns anos mais tarde, já em 1911, comparando o referido Concerto para Órgão com outras partituras de Bach, os pesquisa dores acharam que a obra era um pouco estranha no conjunto das produções do compositor alemão. E descobriram que realmente não era de sua autoria. Constituía um dos doze concertos do. Estro Harmônico, de Vivaldi. Escrito para orquestra e instrumento de corda, Bach transcrevera o concerto para órgão, sem alterar urna única nota.

Vivaldi passou a ser objeto de e pesquisas, como havia sido e continuava sendo Bach. Queriam também descobrir algo de sua vida. E o primeiro fato que encontraram foi sobre sua morte. O estudioso italiano Rodolfo Gálio, pesquisando nos arquivos da igreja de Santo Estêvão, em Viena, deparou ali com uma anotação que dizia o seguinte: "28 de julho de 1741: o reverendíssimo senhor Antonio Vivaldi, sacerdote... faleceu na casa de Satler (em Viena)..." Assim, pois, dois séculos após seu aparecimento no mundo musical, Antonio Vivaldi tomou a sair do anonimato, para figurar, ao lado de Bach e outros, na galeria dos mestres ela música universal.

Silêncio total. Os fiéis se ajoelham, concentram-se na prece, fazem suas súplicas, preparam-se para receber a comunhão. Mas eis que o jovem sacerdote celebrante abandona de súbito o altar, e apressadamente desa-parece do templo. Todos se erguem, alarmados. Fato estranhíssimo, um padre sair da igreja na hora exata de transformar o pão e o vinho em corpo e sangue de Cristo. Moderado o pasmo, decidem denunciar o sacerdote ao tribunal da Inquisição. Este, após intensos interrogatórios, conclui: Dom Antonio Vivaldi é louco, e está proibido de rezar missa. Podia ser louco, mas um louco genial. Sua inspiração tomava-o de tal modo, que ele sentia a necessidade inadiável de compor. Assim foi justificada sua retirada do altar, durante a missa: ele teria ido anotar urna melodia que lhe ocorrera de repente. A explicação do próprio Vivaldi, contudo, é diferente: bem depois do episódio, ele explica que não rezava missa há 25 anos. Não porque tivesse sido proibido pela Inquisição, mas porque não tinha grande resistência física para fazê-lo. Desde pequeno, revela ele, sofria de "opressões no peito". Essas opressões é que o fizeram abandonar o altar por duas ou três vezes. Estranha doença a sua. Impedia-o de rezar a missa, mas não de reger orquestra, ensaiar corais, e ainda compor 456 concertos, 15 sinfonias, 75 sonao-tas, quase 50 Óperas e muitas outras belas peças musicais.

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