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Como foi criada a primeira vacina no mundo?

Está ai uma história que poucos conhecem mas muitos deveriam saber. Como foi feita a primeira vacina da história?


Foto de RF._.studio


A Europa do século XVIII, eram raras as pessoas que não traziam sinais de 'bexiga" no rosto. A ausência de marcas na face servia até de característica, quando se tratava de procurar algum criminoso. Nessa época, em cada cem europeus, dez morriam de varíola. Os que sobreviviam ficavam invariavelmente com o rosto marcado, e, com freqüência, cegos ou surdos. Mas isto não acontecia apenas na Europa: em 1770, uma epidemia exterminou 3 milhões de pessoas na Índia.


A varíola, tão inevitável tomo a velhice e a morte, era considerada um castigo dos céus contra os pecados dos homens. Acreditava-se que o contágio se dava pelos "miasmas" ou exalações., do corpo do varioloso. Por isso, logo aos primeiros sintomas, isolava-se o doente mesmo contra a vontade dos seus familiares. Ele era transportado para um local distante da cidade, a fim de que "nenhum vento danoso, passando pelos hospitais, chegasse a atingir a pulação". Entretanto, no decorrer das epidemias, estes lugares ficavam logo lotados e a maior parte dos doentes acabava morrendo em casa.


Viríola, flagelo da. história


Na Asia e na África, a varíola foi um flagelo desde os tempos mais remotos. No ano de 1 122 a.C. ela já era conhecida mi China. E na Índia havia urna divindade mitológica, Kakurani, que era invocada  quando se desejava evitar esta doença. Estudiosos e historiadores acreditam que são de varíola os sinais de doença visíveis no rosto mumificado do faraó egípcio Ramsés IV (século XII a.C.).


Segundo consta, a varíola propagou-se na Europa, no século VII da nossa era, por intermédio dos árabes que invadiram a Espanha. E nenhum dos outros continentes escapou a esse mal. Quando um dos integrantes da expedição de Cortez, em 1517, desembarcou varioloso no México, a doença alastrou-se: cerca de 3 milhões e meio de indígenas morreram. Aliás, durante a ocupação espanhola na América, quase a metade da população nativa foi exterminada pela varíola. A primeira epidemia de que se tem notícia no Brasil, em 1563, deixou viva apenas a quarta parte da população. Desde esse tempo, no sertão brasileiro, a varíola ficou sendo impropriamente chamada de peste.


Uma das características desta doença é atingir qualquer pessoa, independentemente de sexo, idade ou ambiente. Mesmo as populações glaciais podem ser afetadas tal como o grande número de esquimós que foram vitimados em uma epidemia na Groenlândia, em 1730.


Uma solução perigosa


Desde as primeiras manifestações da doença percebeu-se que todo aquele que se salvava ficava livre de se contrair novamente o mal, isto é, imunizava-se. Por outro lado, já na China e na Índia antiga, observou-se que havia duas formas de varíola, uma bem menos grave que a outra. Ocorreu, então, a ideia de contagiar pessoas sadias com a forma benigna, para torná-las imunes ao mal mais grave. Esta prática, bastante comum em lugares no Oriente, era desconhecida na Europa. E só foi levada para a Inglaterra no século XVIII, por Lady Mary Wortley Montagu (1689-1762), esposa do embaixador inglês na Turquia. Tendo observado médicos turcos inocularem em pessoas sãs a forma atenuada da doença e assim imunizá-las, decidiu-se a difundir o método na Inglaterra. Em 1721, fez sua filha de seis anos ser inoculada publicamente. A operação teve pleno sucesso e logo o método se propagou por toda a Europa. A tal ponto que um médico italiano escreveu em 1726: "Pode-se comparar a varíola em oda Lonbardia; as crianças apresentam-se junto ao doente e podem, por um ceitil (moeda antiga), tocar-lhe a mão. Esse contato basta para que elas se inoculem a varíola."


Esse método, que despertou tanto entusiasmo, pois deu a ilusão de livrar o home de um tremendo mal, apresentava também graves inconvenientes: entre 300 pessoas inoculadas, pelo menos quatro morriam e as que sobreviviam não saravam completamente. E ainda mais: a pessoa inoculada contaminava outras. Assim, em vez de ser extinta, a doença era mantida e disseminada.


Vaca doente, menino sadio


Em algumas zonas rurais da Inglaterra, acreditava-se que quem já tivesse sido contaminado pela "varíola da vaca" (coulpox) estava livre da doença. Esta manifestava-se nos úberes da vaca, em forma de pequenas erupções, e era com grande freqüência transmitida aos ordenhadores. O contágio se dava através de algum machucado que eles apresentassem na mãos e nele aparecia urna ferida semelhante à do animal. Após este pequeno processo infeccioso, essas pessoas resistiam às epidemias.


Fonte da imagem: www.institutojenner.pt


Edward Jenner (17449-1823) imagem acima, médico rural de Berkelev, Inglaterra, ouvindo a história da "varíola da vaca", resolveu estudá-la e verificar sua capacidade de imunização. De suas observações, concluiu que era uma forma atenuada da varíola que contaminava os homens. Convenceu-se também de que as pessoas atingidas por ela se imunizavam. E quando, em 1796, a ordenhadora Sara Nelmes contraiu a varíola de uma vaca enferma, Jenner teve a oportunidade de testar suas conclusões. Extraiu o liquido (linfa) da ferida da mão de Sara e injetou-o num menino sadio, James Phipps (imagem abaixo), através de duas incisões superficiais no braço. Era 14 de maio. No dia 21, James queixou-se de dor nas axilas; no dia 23, sentiu calafrios, falta de apetite e passou mal á noite. Mas no dia seguinte já se restabelecera. Todo o processo havia sido muito semelhante ao do contágio pela varíola. Durante mais de um mês, o menino foi inoculado com material variólico tornado de um doente em estado grave: não houve nenhuma reação. A primeira vacinação (palavra originada do animal que possibilitou a prevenção), ou seja, a inoculação com varíola de vaca, tinha tido sucesso.


Fonte da imagem: www.bio.fiocruz.br


A vacina apresentava grandes vantagens em comparação com os métodos anteriores: podia ser feita em série de pessoa a pessoa, retirando o material de uma e inoculando-o em outra; era "limpa", isto é, não Contagiava os outros; e, o que é mais importante, tornava o vacinado imune à varíola.


A boa-nova se espalha


Em 1798, Jenner publicou os resultados de suas experiências no tratado "Investigação Sobre a Causa e os Efeitos da Varíola Vacum". Mas a vacina foi recebida com enorme desconfiança pelos médicos. No entanto, a notícia de que uma simples incisão podia evitar aquele mal terrível espalhou-se rapidamente e logo todo o continente europeu tinha conhecimento da vacina. Era levada de pessoa a pessoa ou, então, transportada em pequenos frascos protegidos com cera. Mas como trazê-la para a América, se o material podia deteriorar durante a longa viagem? Em 1803, a Espanha organizou urna viagem em que a vacina foi trazida de braço para braço. Foram necessários médicos, enfermeiros e numerosas crianças para manter a transmissão de pessoa a pessoa. A expedição parou no Brasil, mas só cem anos mais tarde a vacina se tornou obrigatória, pelo decreto de 30 de outubro de 1904.


Depois dos anos 60, a vacina não é mais extraída diretamente da vaca para ser inoculada nas pessoas. A linfa, colhida de bezerros, é preparada em laboratórios especiais: pode ser glicerinada, quando nos é fornecida em tubos capilares, ou em pó (forma liofilizada), quando é necessário misturá-la em líquido especial no momento de ser usada. O material deve ser conservado em geladeira, desde o preparo até o uso.


Muito mais do que ter encontrado o meio de debelar a varíola, o mérito de Jenner está em ter descoberto o princípio de imunização. Isso permitiu o estudo posterior das defesas naturais que existem em nosso organismo, assim como dos meios próprios para estimular tais defesas.

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