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Mozart, uma vida pela música

Leopold Mozart e Andreas Schachtner guardaram seus instrumentos. O ofício na corte do príncipe arcebispo de Salzburgo terminara. Chegando à casa de Leopold, os dois músicos surpreenderam o pequeno Wolfgang Mozart, de cinco anos de idade, muito concentrado sobre uma folha cheia de borrões.


Fonte da imagem: Wikipedia.


Intrigado, Leopold perguntou ao filho o que estava fazendo. o menino respondeu simplesmente: "Estou escrevendo um concerto para cravo". A tirada divertiu seus curiosos especta-dores. Entretanto, examinando de perto o insólito manuscrito, ambos se entreolharam perplexos: em meio a manchas e rabiscos no pentagrama, havia notas ordenadas com perfeição. O menino estava realmente com-pondo. A peça, concluída alguns meses de-pois, não era um concerto, mas o Minueto e Trio em Sol Maior, para Cravo.


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Infância de um prodígio


Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart foi batizado em Salzburgo, Áustria, a 28 de janeiro de 1756, dia se-guinte do seu nascimento. Filho de músico, Wolferl, corno era carinhosamente chamado, já aos quatro anos de idade descobriu o cravo e se maravilhou. Sua única irmã, Marianne, apelidada de Nannerl, cinco anos mais velha que ele, havia começado a tomar lições desse instrumento. Wolfgang acompanhava os exercícios entusiasmado.


Seu, interesse despertou a atenção do pai Leopold, que passou a dar-lhe aulas. O pequeno aluno aprendia depressa. Gostava de tocar as músicas de sua própria invenção. Improvisar, porém, logo deixou de satisfa-zê-lo. Começou, então, a anotar as idéias melódicas que lhe ocorriam. Acompanhando o rápido progresso do filho, Leopold convenceu-se de que ele possuía uma musicalidade incomum, que me-tecia ser desenvolvida e explorada mais intensamente. Com o pensamento no futuro, dedicou-se à formação musical de Wolfgang, que passou a um regime de estudo rigo-roso e sistemático. Nannerl, por sua vez, já era exímia instrumentista.


Viagens, melhores professores e plateias mais refinadas certamente contribuiriam para a evolução de seus filhos, pensou Leopold. Munique, capital da Baviera, foi o local escolhido para as primeiras exibições dos dois pequenos prodígios, fora de Salzburgo, no início de 1762. A escolha provou ser acertada o governante local recebeu-os para um recital que teve ótima repercussão. O êxito encorajou o pai-empresário a empreender viagens mais ambi-ciosas. No mesmo ano, partiu para Viena, com os dois filhos. Os primeiros recitais dados por Wolfgang e Nannerl tornaram-nos figuras unanime-mente elogiadas pela refinada sociedade vienense. Não demorou um convite para que se apresentassem na corte.


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Depois da queda, o beijo


Palácio de Schoenbrunn, Viena. A alta aristocracia austríaca lota o luxuoso salão, aguardando o início do sarau patrocinado pela Imperatriz Maria Teresa. Um meni-no-prodígio vai tocar. Chegada a hora, Wolfgang entra resolutamente no salão. E acontece o imprevisto. No meio do caminho, escorrega no assoalho polido, perde o equilíbrio e estatela-se no chão. A Princesinha Maria Antonieta vem logo em seu socorro. Ajudado por aquela que seria mais tarde rainha da França, o garoto põe-se de pé e, com ingênua simplicidade, agradece a gentileza : "Você é a mais bondosa de todas. Quando eu crescer, quer casar comigo?" Em seguida, muito desembaraçadamente, beijar Vlaria Antonieta. E ainda sob a surpresa e o riso dos presentes, dirige-se ao cravo e começa a tocar. No dia seguinte, é o assunto nos salões de Viena.


Mas ele não poderá repetir as apresentações, porque logo depois uma escarlatina o deixará de cama por bom tempo. E o volúvel público de Viena esquece-o tão facilmente como a descobrira. Depois de um período de repouso em Salzburgo, Leopold e os filhos partem para Munique, e daí para Frankfurt, onde se apresentam em vários recitais. Mas o êxito parece ter subido à cabeça de Leopold. Ele apresenta seus filhos como se fossem fenômenos, mais empenhado em assombrar o público do que em revelar seu valor artístico. As viagens continuam. Mozart compõe cada vez com mais empenho.


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Um gênio na Itália


Após várias excursões, a família Morzart volta finalmente para a casa, em novembro de 1765. No sossego do lar, Wolfgang com-põe ininterruptamente durante dois anos. Agora com onze anos, parte para Viena, em companhia do pai e da irmã, corno sempre. Malfadada viagem. Além de contraírem varicela, que grassava na capital, Wolfgang e Nannerl não contam ai com o apoio dos imperadores e Leopold não obtém os lucros que esperava. Mas para o jovem Mozart a estada tem suas vantagens. Trava vários conhecimentos importantes e conquista a simpatia do príncipe arcebispo de Salzburgo, sendo contratado para servir na capela arquiepiscopal. Pouco depois, pede licença ao arcebispo e parte para a Itália, país da ópera. Torna-se membro da Academia Filarmônica Bolonhesa, embora tenha sete anos menos que os 21 exigidos pelo regulamento. As façanhas musicais de Wolfgang na Itália transformam-no em mito. Depois de receber do papa a "Cruz do Esporim de Ouro", volta a Salzburgo.


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Mas o menino cresceu


Concertos, sinfonias, sonatas, óperas, missas e peças sacras mais curtas, minuetos e divertimentos (divertimenti) avolumavam a obra de Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart, agora homem feito, que se assina Wolfgang Amadeus Mozart. Desaparece o meninoprodigio, surge o homem : um grande músico. No seio da sociedade européia do século XVIII o músico é um criado. A serviço de um rei, um príncipe ou um bispo, usa libré e toma suas refeições na copa junto com a criadagem. Casa-se ou viaja segundo as dis-posições de seu amo. Mozart é mestre de capela do Conde de Colloredo e começa a revoltar-se contra a situação. Exasperado, não suporta mais as humilhações pelas quais o conde o faz passar. irritado, pede demissão a Colloredo em 1777 e parte, levando sua mãe. Viajam por Munique, Augsburgo, Mannheim. Nesta última cidade, conhece a jovem Aloysia Weber, por quem se apaixona. Chegando a Paris em 1778, descobre que o pequeno prodígio fora esquecido. O mundo musical da capital francesa fecha-se a esse novo Mozart, adulto. Ele sofre com isso. Mas sofre muito mais com a morte de sua mãe depois de urna breve doença.


Então, abandona Paris, e reencontra Aloysia em Munique. Rodeada de admiradores, eia o despreza. Cheio de sofrimento, re-torna a Salzburgo e ao trabalho com Colloredo. Mas ficará aí por pouco tempo. Discute com o conde e acaba rompendo definitivamente. Quer ser livre, está cansado de trabalhar sob encomenda. Instala-se em casa dos Weber e casa-se com uma irmã de Aloysia, Constanze. Arranja alunos e acumula afazeres para sobreviver. A tragédia é uma constante na vida de Mozart. Em 1784, morre seu primeiro com pouco mais de um ano de idade. Mas isso é apenas o começo de um novo ciclo de infelicidades que se seguirão. Repudiado pela corte e pelo público, que não comprende suas óperas, vê-se cheio de dívidas. Atormentado pelas freqüentes doenças de Constanze e por sua própria saúde em declínio, tenta retornar sua vida errante. Praga, Dresden, Leipzig, Berlim.


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O fim da vida


Poucos sucessos, fracassos retumbantes. Em 1791, nova indisposição obriga Constanze a passar algum tempo em Baden, numa estância. Saudoso e solitário, Mozart continua compondo. Contudo, as dificuldades financeiras são terríveis. Um grupo de húngaros oferece-se para contribuir anualmente com urna elevada quantia, a fim de que ele possa manter uma existência condigna. Mas é tarde demais. Com o organismo minado por uma nefrite crônica, so-fre progressivo inchamento das pernas, que o obriga a recolher-se à cama. Mesmo deita-do, trabalha na partitura de um réquiem, encomendado por misterioso personagem.


Na noite de 4 de dezembro 1791, Wolfgang Amadeus Mozart morre, sem ter-minar o réquiem. Süssmayer, seu fiel discípulo, completará a obra, segundo a orientação dada pelo compositor em seus últimos momentos. Ao amanhecer, sob um céu ameaçador, o modesto caixão é conduzido pelas ruas por dois homens, seguidos pelo cortejo fúnebre. Mas uma violenta tempestade de neve faz com que os acompanhantes desistam da longa marcha até o cemitério. Sozinhos, os dois carregadores prosseguem, depositando o corpo na capela mortuária, de onde é removido, à tarde, para ser enterrado em vala comum. Quando Constanze Mozart tenta localizar o túmulo do marido para colocar uma cruz sobre ele, ninguém sabe informar-lhe o local. De Joannes Chrvsostomus Wolfgrangus Theo-philus Mozart restam o nome e a história de toda uma vida dedicada à música.


Mozart compôs cerca de 650 obras


Entre concertos, sinfonias, sonatas, óperas, missas, peças sacras curtas, minuetos e divertimentos (diverti-menti). Destacam-se, entre as mais conhecidas: Minueto e Trio em Sol Maior, para Cravo (aos 5 anos de idade); Minueto em Fá Maior, para Clavicórdio 1.K.6. (aos 6 anos); Sinfonia em Ré I.K.19 (entre os 7 e os 10 anos); Missa em Ré Menor I.K.65 (aos 12 anos); Quarteto de Cordas, em Sol I.K.80, Mitridates, Rei do Ponto, Ascanio in Alba (óperas, aos 14 anos); Lucio Silla (ópera, aos 15 anos); Concerto para Piano em Ré Maior (entre 1775 e 1777); Sonata para Piano em Dó Maior I.K.309 (1777); Cinco Sonatas I.K.330, 331, 332, 333 e 310, Popoli de Tessaglia (ópera, 1778); Missa da Coroação I.K.317 e Diver-timento para Orquestra, em Ré Maior 1.1(.334 (1779); O Rapto no Serralho e Idomeneu; Rei de Creta (obra predileta do autor, 1781); Sin-fonia n.° 36, em Dó Maior I.K.425 ou Linz, Missa em Dó Menor I.K.427, Sinfonia n.° 35 em Ré Maior —~I.K.385 ou Haffnèr e Fantasia em Ré Menor, para Piano I.K.397 (de 1782 a 1785); Seis Quartetos Dedicados a Haydn I.K.387, 421, 428, 258, 464, 465; As Bodas de Figaro (ópera), Uma Brincadeira Musical, para Orquestra I.K.522, Don Giovanni (ópera), Pequena Serenata Noturna, para Cordas I.K.525 (de 1785 a 1789); A Flauta Mágica e Clemência de Tito (ópera 1791), Ré-quiem (derradeira obra de Mozart, terminada por seu discípulo Süssmayer).

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